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Eternos Seres,
por Carlos de Castro

        Decido partir de um ponto conhecido e voar em círculos. Assim, subindo, subindo por espirais aleatórias até então inexploradas. Primeiras impressões: número incalculável de personagens querendo passar, esperando para entrar em cena. Escritores, por favor, vamos colocá-los para trabalhar, vamos dar emprego a essa gente!

        Aí eu paro e penso: aglomeração, opa, evitar é preciso. Melhor será atender um a um.

        Veja por exemplo Januária, a Jajá. Neguinha simpática, cozinheira por inspiração e precisão, já caminhou bem na vida. Trabalha em casa de madame e no sábado à noite se esbalda na gafieira, eh brasilzão! Tufão nos quadris…

        Outro me aparece:  Rigoberto Castanheira. Sujeito fechado, cheio de não me toques e gravatinhas finas. Encrustado na repartição. Faz parte, patrimônio declarado, com direito a crachá permanente desde sempre. Quem conseguirá abri-lo? Espiar suas entranhas e trazê-las à luz. Quem se aventura?

        Mané, Margarida, Maria. Engana-se quem imagina serem apenas alfabéticos seres. Não, não. São de alma e tinta: Mané jogador de sinuca, Margarida, alegre carola de igreja, falso-self legítimo, e a Maria, baixinha feroz, um azougue, não mexa com ela.

        Num relance de olhos contemplo sítio menos agitado. Percebo tratar-se dos veteranos, personagens que já viajaram por histórias impressas ou contadas. Eles permanecem ali, numa situação, digamos, mais favorecida, têm consciência de ter um lugar ao sol. Alguns chegam mesmo a deitar na fama – preguiça pura. Pura ilusão! Todos eles sabem que, mais dia menos dia, terão que se mexer. Algum leitor inveterado os escarafunchará num sebo. Ou, a qualquer momento, podem voltar aos livros, aos notebooks e iPads. Nem que seja através da pena crítica de teóricos e pesquisadores. E cada vez mais são capturados e flutuam na nuvem internética. Uau!

        Reparando bem são eternos. Moram no Olimpo. Um anexo, melhor dizendo. Zeus jamais permitiria que se estabelecessem no salão principal, junto a Hera, Afrodite, Apolo, Hermes, Atena, enfim aquela turminha de deuses que vai passando a eternidade saboreando ambrosias e se divertindo com os percalços humanos. Mas, por serem eternos também, os personagens têm, sim, seu espaço reservado. Vejo tratar-se de um lugar bastante anárquico, nada a ver com nossos condomínios modernos, organizados, geométricos. Não, não. Convivem aleatoriamente, famosos e desconhecidos, jovens e velhos, homens e mulheres, humanos, animais e alienígenas. Vindos da antiguidade homérica e chinesa, de longínquos castelos medievais, sertões áridos, apartamentos junto ao mar, favelas ou futurísticas guerras interestelares.  

        Aterrizo. Volto aqui aos meus botões contemplando mentalmente esse coletivo fantástico e multicolorido quando uma música me vem à cabeça:

        Procurando bem, todo mundo tem pereba, marca de bexiga ou vacina, e tem piriri, tem lombriga, tem ameba,

        Só a bailarina que não tem.

        …

        Futucando bem, todo mundo tem piolho, ou tem cheiro de creolina, todo mundo tem um irmão meio zarolho,

        Só a bailarina que não tem.

        Peço emprestado a imagem do Chico. Nós, pobres mortais, somos “todo mundo”. Ela, “a bailarina”, representa os personagens, intocáveis, não envelhecem jamais.

        É, só que tem uma coisa: somos nós, escritores e leitores de todos os tempos – atuais, passados ou futuros – que criamos e cultuamos os personagens. Estamos indelevelmente impregnados neles, em seus “DNAs”. Somos um pouco Hamlet, James Bond, Capitu, Drácula, Sancho Pança, Alice, Godot, Emília e a cadela Baleia. Somos Fausto e Quixote, Raskólnikov, Riobaldo e Diadorim. E estamos ali também, junto aos infinitos personagens ainda desconhecidos.

        Ufa! Que alívio! Podemos envelhecer e ser mortais, pobres mortais. Mas seremos eternos também.

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