Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos Escritores 50+ Paulo Akira Fruto de outono

Fruta de outono,
por Paulo Akira

Após o almoço eu puxei as pontas da bainha do avental, trouxe-as para a cintura e, dando nós nas laterais, formei uma espécie de saco onde joguei três ou quatro tangerinas. Era gostoso, enquanto caminhava segurando a banqueta, sentir aquelas esferas se chocarem, massageando o ventre redondo e a virilha até que eu estivesse debaixo da jabuticabeira, lá no quintal. Sentei, finquei os pés um pouco separados, abri as pernas, as frutas se concentraram entre elas e antes de apanhar a primeira, recostei-me no tronco maciço da árvore, respirei fundo e vi no céu as nuvens se movimentando. Uns instantes depois da contemplação, iniciei o ritual que mais me agradava. Apanhei uma delas. Com as unhas dos dedões, furei o bico da fruta, introduzi os dedos por baixo da casca e fui aos poucos desnudando a polpa que surgia recoberta de teias brancas. Durante longo tempo eu a limpei.  No céu as nuvens esgarçavam. Aquela esfera imaculada apareceu resplandecente ao sol. Forcei ao meio e abri completamente. Alguns gomos respingaram o suco dourado. Destaquei um e lentamente, como os nimbos se espalhavam no horizonte, os pensamentos se esvaíram. Retirei a película transparente dos nacos de fruta para saborear somente a carne suculenta. E me alegrei. O calor antigo nos braços e o perfume cítrico nas mãos se multiplicavam no tempo. A mesma paisagem primeva se copiava quer nas montanhas, quer nos telhados. O cheiro de terra se levantava de meus pés, de meu corpo que repentinamente se convulsionou nas dores da frutificação de um filho.

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