Este artigo é parte do Clube dos Escritores fruto - Paulo Akira Nakazato - clube dos escritores maiores de 50 - fifties mais

Fruto

 

“A mangueira frutificava em outubro. A copa ampla obstruía o horizonte de céu limpo, interceptando os oblíquos raios solares do início da tarde. Sombreava a pequena praça e o par de bancos artesanais, onde crianças brincavam de pique ou cabra-cega. Sozinhas – porque naquele canto do bairro a rua não tinha saída e formava um bolsão de segurança ao intenso movimento das avenidas principais -, pareciam animaizinhos em constante agitação”. Arthur parou de digitar. Foi surpreendido pelo chamado repentino sobre o texto. Clicou na tela.

– Oi, filha.
– Oi, pai! Escrevendo?
– Anotações…
– Recebeu meu email?
– Li ontem à noite. Ainda não fiz as contas.
– Preciso de uma resposta rápida, senão perco a passagem.
– Amanhã eu respondo. E seu irmão? Sua mãe?
– Mamãe continua brava comigo. O Vinicius na dependência em Cálculo.
– De novo?
– Ele não gosta da matéria.
– Podia fazer um esforço e dar exemplo à irmã caçula.
– Na verdade ele não gosta de estudar.
– Diz a ele que sou bom em Cálculo, se ele quiser ajuda… – olhou repentinamente pela janela.
– Que foi, pai?
– Acho que vi sua amiga Clara.
– Pensei que tinha mudado daí.
– Acho que era ela. Não deu pra ver direito por causa das folhagens. Mas vi o tênis All Star vermelho sumindo debaixo da mangueira. Não é ela que sempre usa esse tênis?
– É. Na última vez que a vi ela estava querendo fugir.
– Fugir?
– Não aguentava mais a mãe.
– E você? Disse alguma coisa?
– Eu não. Se eu fosse ela, também fugia. A mãe é louca!
– Na idade de vocês, eu também pensava que todo mundo era louco.
– A Clara tem dois anos a menos que eu. E não acho todo mundo louco.
– Sei…
– Ela é meio deprimida.
– Por quê?
– Sempre foi. Lembra que você nos contava ou lia histórias debaixo da mangueira? Todas as crianças iam ouvir. Ela era a que mais gostava e continuava imaginando enredos um tempão. De repente ficava muda e triste. Fui sua melhor amiga, mas não consegui descobrir nada.
– E da última vez, como ela estava?
– Melhor. Pelo menos conversamos bem. Estava namorando… Não vai contar pra mãe dela, senão a louca mata nós duas!
– Só vejo a mãe de longe, do portão de casa. Mal nos cumprimentamos. Mesmo depois desses anos todos. Não me pareceu doida. Pelo contrário, parecia amigável.
– Faz tempo que não falo com a Clara. Ia me telefonar, mas nem whatsapp.
– Você e Vinicius podiam ficar uns dias aqui. Rever os amigos.
– Não temos mais amigos aí. Mudaram ou se transformaram.
– São suas raízes – viu na tela a filha ir à estante e voltar com o celular -. Você atende todo mundo assim? – Como?
– Nua. Não reparou que está só de calcinha?
– Tá calor. Saí agora do banho. Estou tão indecente?
– Só quando resolve pegar o celular.
– Tá bom. Da próxima vez eu ponho a camiseta. E aí?
– Eu disse que vou ver. Não é tão barato… olhou novamente a janela.
– É a Clara?
– Não. Uma revoada de pássaros que saiu da mangueira. Um sabiá quase bate no vidro. Prometo que pensarei ainda hoje. Só não gostei de saber que vocês vão sozinhos, sem os pais. E aquele…
– O Vitor, você quer dizer.
– Sim, o Vítor.
– Você ainda não se deu conta, pai? Quando eu estiver no México, em janeiro, farei dezenove anos e o Vítor também. Adultos feitos.
– Não precisa me lembrar.
– E na mesma universidade. Ele foi muito bem no vestibular.
– Dou resposta amanhã.
– Mas não esquece. Eu espero. Pode continuar nas suas historinhas. Beijos.

Arthur fechou o Skype. Concluiu alguns parágrafos. Observou a praça e não percebeu nenhum movimento. Espreguiçou. Ergueu-se, desceu as escadas, saiu atravessando o pequeno jardim. Abriu o portão e, da calçada, contemplou a soberba mangueira que se estendia por todos os lados. As mangas eram enormes gotas despencando, solitárias. As formas alongadas de pele lisa e manchas rubras faziam-nas carnudas. Arthur pensou nelas como fetos de um espaço vivo que gestava matéria orgânica. Atravessou a rua em direção aos bancos, mansamente. Sentiu a brisa morna da manhã varrendo folhas secas por debaixo de seus pés, que chiavam quando pisadas. Olhou para cima e varreu os ramos em busca de uma fruta ao alcance. Percebeu uma madura balançando entre outras verdes e se aproximou. À medida que a distinguia, ela se transformava, até a forma de um tênis All Star. Arthur, desnorteado, percebeu pernas finas de jeans, empapadas de urina e fezes, esbarrando nas folhas. Inclinou mais a cabeça e viu a camiseta larga se abrindo por baixo para deixar ver o ventre arredondado. Dos lados, os braços soltos de Clara oscilavam. O queixo abaixado e as pálpebras fechadas expunham a dor que deveria ser o pescoço suspenso por uma corda trançada de varais, feito um pedúnculo preso a um galho grosso repleto de frutas prestes a cair.

Paulo Akira Nakazato, 55 anos, físico. Adora palavras e às vezes organiza algumas em contos e crônicas, esperando que façam sentido. Mas o que o atrai, mesmo, é quando elas orbitam no poema e se arranjam em sistemas estelares próprios.

 

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