a importância de se cuidar - adília belotti - o melhor dos 50

A importância de cuidar

Interdependência. A importância de cuidar
Interdependência. A importância de cuidar

Adoro histórias de rabino! Mas tenho favoritas. Perguntaram para o rabino quando a vida começa e ele respondeu: “A vida começa quando os filhos saem de casa e o cachorro morre!”. Essa é a minha favorita.

São sábios os rabinos. Sabem que a vida se faz em etapas. Entendem que o projeto ‘família’, que começamos lá atrás exigiu toda a nossa dedicação, todo nosso cuidado. E durante anos…

Mas um dia os filhos saem de casa e eventualmente, até o cachorro morre. Fica a impressão de que nossa função acabou: ‘cuidar de quem?’, ‘cuidar do que?’

Aí entra o rabino, quem sabe pega na nossa mão, quem sabe ri seu sorriso de homem do mundo, velho e generoso, e solta sua fala surpreendente: ‘a vida começa agora’…e aí?

A gente muitas vezes se ilude achando que apenas as crianças precisam de cuidados, elas, e apenas elas, podem expressar seu lado vulnerável, sim, apenas as crianças podem ser dependentes assim tão escancaradamente e apenas à elas é dado o direito de ficar na posição de ‘aprendizes da vida’. O resto de nós, mães, pais e adultos devem ficar de um outro lado. Do lado de quem está pronto, acabado e não precisa da ajuda de ninguém, obrigada!

Essa independência toda, não é bem assim. “A realidade da vida é a interdependência”, avisa a  antropóloga, Mary Catherine Bateson, autora do livro Composing a Further Live (inédito no Brasil). E continua “precisamos compor nossas vidas de tal maneira que a gente consiga dar e receber. E precisamos aprender a fazer essas duas coisas com graça, vendo-as, ambas, como partes de um único padrão, em vez de percebê-las como alternativas conflitantes”.

É baseado na ideia de interdependência que o planeta inteiro funciona. A continuidade da vida depende da chuva, que depende das florestas, que depende dos plânctons nos oceanos.  Dependemos da cortesia e da civilidade uns dos outros. A comida que está na nossa mesa agora mesmo depende da sorte de algum pescador em qualquer mar do mundo, da chuva na plantação de um agricultor que nunca chegaremos a conhecer.  Essa rede, que a web expressa com tanta clareza, nos conecta e nos define. Nossas vidas estão de tal maneira entrelaçadas nas vidas de outros seres que a ideia de ‘com licença, eu me basto’ é até difícil de compreender.

E o que tem isso a ver com a história do rabino lá em cima?

Nossa geração cresceu tentando ser independente. Que os filhos dependam de nós, a gente entende. São crianças. Mas nós? Não queremos depender de ninguém e ninguém precisa cuidar de nós, obrigada.

Depois dos 50, quando os filhos saem de casa e o cachorro eventualmente morre, descobrimos que temos ainda muitas décadas para viver. E que estamos bem longe de nos considerarmos prontos e acabados. Ao contrário, tudo agora é sobre aprendizado. Desde como lidar com nosso corpo que envelhece até resignificar nossas experiências de vida para oferecer contexto e reflexão para os novos ‘nós’ que vem por aí.

A pergunta ‘de quem vamos cuidar agora?’, poderia ser respondida pelo nosso rabino: ‘de nós e uns dos outros’.

Compartilho com vocês algumas ideias para inserir outros ‘cuidados’ na nossa vida:

  1. Interdependência é a base de todas as teorias modernas que estão sendo desenvolvidas sobre inclusão social. Que tal participar de algum movimento que inclua você na vida de outras pessoas?
  1. Por um mundo mais ético do ponto de vista ambiental. É impossível pensar na vida na Terra se você adotar um ponto de vista de ‘ilha’. Ao contrário, nessa rede, se um ponto balança, a rede toda estremece. Engajar-se em causas ambientais é uma boa forma de deixar a Terra cuidar de você.
  1. Adote um animal. Existem tantos, abandonados por aí… Os animais convocam o melhor da nossa humanidade e existem estudos que comprovam que eles fazem bem até para nossa saúde. De depressão à doenças cardiovasculares, os donos de animais levam vantagem sobres os que dispensam essas companhias de muitas patas. Ou seja, quando você pensa que está cuidando deles, são eles que estão cuidando de você.
  1. Cuide de si mesmo. As estatísticas sobre longevidade em países como o nosso sugerem que vamos viver muitas décadas mais do que nossos avós. E como vamos fazer isso? Ninguém tem a receita e toda contribuição individual é bem-vinda. Vamos todos precisar descobrir quem somos nesse novo contexto e resgatar a sabedoria que criamos ao longo da vida. Escreva, fotografe, pinte, crie versos, converse…e compartilhe.
  1. Prepare-se para ser avô ou avó. Mas não apenas dos seus próprios netos. Dos netos de todos. Nos EUA, famílias cada vez menores, pais cada vez mais ocupados com a sobrevivência e parentes morando há quilômetros de distância, estão gerando um novo tipo de relacionamento: pessoas mais velhas que se dispõem a ajudar crianças e jovens nas tarefas da escola, por exemplo. Novos laços…quem aprende, quem ensina?

 

Esse post foi publicado originalmente no canal Viver mais 50 do MSN, patrocinado por Corega

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