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A intrusa

A intrusa

Ela chegou sem pedir licença. Eu tinha voltado da praia por onde andei durante um mês pelas areias fofas de Cupuaçu, no Piauí, praia inclinada fazendo parede para evitar a invasão das águas.

Rede, caipirinha, peixe frito, banho do mar já amansado ao cair da tarde.

Ela entrou sorrateira em minha cama durante a noite, não percebi nada.

Pela manhã, ao me levantar, minhas coxas me traíram. Quem mandou andar um mês em areia fofa de praia inclinada?

Ginástica e mais exercícios com peso, agachamento, agachamento com peso, sem peso, com peso cada vez mais pesado, agachamento em um lado só, depois do outro, tinha que recuperar a força de minhas pernas que sempre me levaram para onde o desejo apontava.

Ela rondava, esperta, silenciosa, invisível, esperando o melhor momento para invadir mais terreno.

Escolheu a noite, covarde que é, escondida pela escuridão, ajudada pelo meu sono, desligada do mundo. Acordei no meio da madrugada com alguém colado em minhas costas, me empurrando fortemente para fora da cama. O coração descompassado na boca,  não abri os olhos, não acendi a luz, não gritei, não olhei para trás, apenas rezei fervorosamente por proteção. A “coisa” foi desistindo, diminuindo a violência, foi embora.

E me deixou amarrada na cama. Braços fundidos aos ombros, pernas acorrentadas ao quadril, coluna grampeada vértebra por vértebra, sem espaço para um fio de ar,  mãos atarrachadas nos pulsos,  cabeça engastada no pescoço. Atada na cama.

Dor.

Dor é seu nome.

Desde então, há três anos faz parte de minha vida. Me faz companhia dia e noite, comporta-se feito convidada inconveniente, não vai embora nunca.

Introduziu-se em minha cama, em meu sono , em meus hábitos diários, em meus exercícios, em minha yoga,  em meu Tai Chi, atrapalhou minhas caminhadas,  interferiu em minhas relações sociais,  na relação amorosa, em minhas conversas, entrou na minha cozinha, no meu fogão.

Passei a evitar laticínios e seus derivados, dizem que ela gosta, passei a evitar glúten,  ela adora pizza e massas, carne vermelha, álcool. Também eu adoro tudo isso. Temos muita afinidade, ela aprecia as mesmas coisas que eu, é meu duplo,  me machuca, minha inimiga.

Passei a evitar o que  a delicia.

Tomei banho de vinagre, dizem que ajuda, coloquei inhame em meu cardápio, batata roxa com casca, chia, aveia grossa, farinha de linhaça dourada fina, nada de agrotóxicos nem de tomates, que também adoro, fui ao João de Deus, que me benzeu, passei a vigiar como andava, como sentava, como me mexia.

E ela lá, sempre lá, cada vez mais gorda, mais bem instalada.

Todas as medicinas alternativas, todas as massagens, as tradicionais, as indianas, as ayurvédicas, com pedras quentes, com cristais reluzentes, alongamentos, fisioterapias fantásticas, todos os médicos famosos e menos famosos, em geral caríssimos, exames de sangue em profusão, ressonâncias magnéticas em todas as posições, encharcada de anti-inflamatórios e analgésicos.

Ela foi ficando aborrecida com tantos ataques, resolveu amainar. Largou meu corpo mas instalou-se em meu pescoço de onde não sai, aninhada em meu ombro direito que belisca quando está com muita raiva de mim. Ou então me pune com um choque que me faz tremer, quando me esqueço que não posso virar a cabeça para olhar o motoboy camicase que me ameaça, quebra meu espelho, me xinga e eu tenho que fazer uma manobra rápida, sair da frente dele, que passa serpenteando entre os carros, para fazer o mesmo lá adiante.

Cortisona, a receita unânime.

Ganhei uma cintura extra, algo que se projeta para fora da silhueta,  circunda meu corpo, uma boia pesada e fria. Eu que sempre fui alongada, e ela, aconchegada, satisfeita, gorda, indiferente às transformações  da minha figura.

Exaurida, resolvi mudar de tática.

Não vou mais atacá-la, ela deve estar querendo me falar alguma coisa que não quero ouvir.

Mudei seu nome, foi batizada Dolores aos 20 dias do mês de agosto do ano de 2015 , às 2:47 de uma madrugada úmida e fria.

Fiquei com pena dela, bastarda até então, sem pai nem mãe, detestada e atacada por todos, principalmente por mim, onde veio se abrigar.

Choramos juntas, choramos muito, a noite inteira, e quando uma claridade cinzenta, pegajosa e tímida, surgiu pelas frestas da veneziana, ela arrefeceu, dormiu e me deixou descansar.

Sylvia Loeb é psicanalista e escritora. Visite seu site em sylvialoeb.wordpress.com// ou acesse sua página no Facebook: @SylviaLoeb

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