Este artigo é parte do Clube dos Escritores A Lei de Pollyanna - SERGIO ZLOTNIC e MARCELO CIPIS– fifties mais

A Lei de Pollyanna

 

Estava para morrer e morava no Canadá. Diziam que seu QI era assombroso. É sabido também que a luz das revelações acomete aqueles cuja morte se avizinha. E, ainda mais, há clarividência bastante na loucura – estado em que sempre estivera imerso. Assim, gênio gauche, triplamente sábio pelas circunstâncias, as ideias nascidas de sua cabeça tinham de ser especialmente valiosas. Eleito porta-voz, fui colhê-las no inverno de 2011. Todos proibidos de aproximação, obtive somente eu as autorizações indispensáveis e devidas para entrevistá-lo. Com restrições: alguns assuntos fora de cogitação. Gravações e filmagens não permitidas, claro. Sapatos, nem pensar. Tentei uma foto – me tomaram a câmera. Só se confia na memória espontânea, involuntária e flutuante, que é aquela que importa! Não haverá provas. Do que me foi contado, sublinho um estilhaço que, agora – depois que tudo se acabou, suas cinzas lançadas ao Pacífico -, resiste em cair no esquecimento. Eis o fiapo.

Queixa-se das pedagogias dos países de primeiro mundo. Elas encampam uma espécie de Lei de Pollyanna, autoritária, grassando por todos os cantos. São interditos à reflexão, à autonomia, à liberdade, à inteligência. Servem para normatizar e fazer das pessoas rebanho, submetidas à ordem, reduzidas a pequenos pôneis de circo, amestrados.

Assim como a religião, em tempos idos, foi sociologia, agora é o politicamente correto que impera (que poderia ser definido – ele me diz – como a pior das caras da hipocrisia).

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Arte: Marcelo Cipis

 

Relata um caso, o de um menino jogando futebol, num estádio ao lado de sua casa. Mau jogador. Chuta torto. Não tem salvação. Ao concluir um lance, o pior da história do futebol, o menino lança a bola não ao gol, mas aos confins. Esta é a cena.

Ao invés de vaia, o menino recebe aplausos efusivos de todos: do país inteiro, da América do Norte, dos outros jogadores, do próprio time e do time adversário. O público unânime o ovaciona em pé. É o próprio Tempo pós-moderno que o aplaude. O grito encorajador: nice try, nice effort!. Bela tentativa, belo esforço!

Mediocridade é o preço da civilização. Melhor que barbárie, nem se discute. Normas engolidas pelo cardume. Não recriminar, não desencorajar, não ignorar as boas intenções. Buquê de frases para o novo século, num grande lema, em forma de pétala. Plantar bondades aqui, pescar solidariedades acolá. Pois quem semeia vento, colhe tempestade. Fazei o bem, não olhai a quem.

Cidadãos entorpecidos, robotizados, ele me diz com ar de tédio, assistindo ao intragável mundo apagar ao seu redor.

Ao contrário, faz arte que preste quem transpõe a linha de anestesia e de sono. Quem se liberta da massa… Quem salta, no verbo e no ar. Transgressões! Somos todos hipnotizados, menos ele – segundo ele.

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Arte: Marcelo Cipis

 

De lá, pra cá, cinco anos se passaram. E, hoje, depois do último massacre numa universidade, em que um aluno novamente fuzilou todo mundo pra depois se matar, lembrei daquela conversa de janeiro de 2011, no terraço de sua casa, de onde se avistava os montes nevados, testemunhas monumentais.

No Brasil é melhor, arremata! Mas somente nessa questão. E não por muito tempo…

 

sergio zlotnicSERGIO ZLOTNIC – Psicanalista, é Pós Doutor em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisador dos diálogos de Freud com os campos da arte. Colunista do Portal da SP Escola de Teatro. Pela Editora Hedra, lançou o livro de ficção Baleiazzzul, alusão ao atravessamento do processo psicanalítico.    [email protected]

 

Marcelo Cipis, artista plástico, ilustrador, Foto: Renato Stockler/ Na LataMARCELO CIPIS se formou pela FAUUSP em 1982 e desde 1977 trabalha como artista plástico, atuando na área editorial com ilustrações para livros, revistas e jornais. Atualmente colabora semanalmente para a coluna de Vladimir Safatle no caderno Ilustrada (Folha de São Paulo). Também vem realizando desde 1982 exposições em espaços públicos e galerias. Em 1991 participou da 21ª Bienal Internacional de São Paulo com a instalação “Cipis Transworld, Art, Industry & Commerce”. Ganhou o premio de melhor pintura da APCA em 1990 com a exposição na galeria Kramer, “Trabalhos recentes & Pyrex Paintings”. Ganhou dois prêmios Jabuti na categoria Ilustração com livros de sua autoria. Atualmente é representado pela galeria Emma Thomas de São Paulo.

6 comments

  1. hilário! bem para você, Szzzz, eu enviei um politicamente altamente incorreto abraço enfático para mim… Agora, humildemente, considerando, matutando, envio abraços para você que, também, merece..
    Abraços para você!!!!,
    Janete

  2. Jan, acho que uma burrice me acometeu ( voz passiva instaurada!), não entendi sua mensagem politicamente incorreta. Aposto que tem conhecimentos secretos a respeito do autor.De qualquer modo, concordamos, é um fazedor de arte.

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