Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Livro Mulheres,
de Sylvia Loeb

“Me chamo Sylvia Loeb, nasci em São Paulo, sou psicanalista e escritora.Tenho quatro livros publicados: Contos do divã: pulsão de morte e outras histórias (Ateliê Editorial, SP, 2007); Amores e Tropeços, (Terceiro Nome, SP, 2010); Heitor (Terceiro Nome, SP, 2012) e Homens (Oficina de Conteúdo, SP, 2017).

Meus personagens, inevitavelmente, são vistos pela ótica da psicanálise, ou seja, para além do que surge na superfície: há sempre um outro que nos habita e que nos é desconhecido.

O livro MULHERES é composto por várias delas: alexandrina, miudinha, queria tanto casar; as irmãs gêmeas que não conseguiam se desligar uma da outra; Hannah que fugiu de casa pelo ódio da mãe; Aisha que foi viver suas conquistas em Israel; Boor, o homem por quem Hanah se apaixonou e que só lhe trouxe dor; Olga, a amiga que traiu a melhor amiga; Celeste a professora de longas unhas vermelhas com que arranhava as costas de seus amantes; Celia Cruz, a mulher que deu à luz um bebê que não crescia. Erna, Naice, de olhos de gato, Mercedes, de ancas largas, que não queria homens, Judith de seios imensos que suspiravam por Januário; Samantha, tão linda, ninguém diria que era menino; Elisa, que jamais cresceu; dona Emília, a babá alemã odiada; Weida, Boneca, moças que foram proibidas de amar.

Um pequeno universo de mulheres com suas questões de amor, de desejos não satisfeitos, de expectativas, às voltas com as demandas da vida, jamais desistindo de um destino que não podiam controlar.”

Confira o primeiro capítulo do livro Mulheres, de Sylvia Loeb.

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Alexandrina 

Esta é a sua história. Não eram muito jovens, deveriam ter por volta dos quarenta anos. Estavam sentados no salão de recreação do clube, na hora do intervalo. Ela, magrinha, a cintura reta, o quadril estreito, os pequenos seios achatados, parecia uma garotinha de quatorze anos, se tanto. A pele do rosto ressecada acusava falta de hormônios que banham o corpo de uma mulher. Apertadas uma na outra, as pernas magrinhas cruzadas. Frases entrecortadas, a voz trêmula, as veias do pescoço inchavam no esforço da fala. Antes de conseguir balbuciar qualquer palavra, um sorriso ameaçava mudar o desenho de sua boca, que começava a tremer um pouquinho, só um pouquinho. Olhava para baixo, difícil encontrar os olhos de Alexandrina, desviavam, sempre desviavam. As mãos miúdas e trêmulas, os dedos compridos mal seguravam a xicrinha de café que balançava, entornando a metade no pires. 

Yan, sentado ao lado dela, segurava sua xícara de café já frio. A conversa era difícil. Ele queria perguntar qualquer coisa, mas ela tão nervosa, tremendo tanto, o café esparramado no pires, ele aflito para o líquido não cair na saia cinza, no tapete bege. Quer outro café? Não, não – ela ficou em pé depressa, perdeu o equilíbrio e saiu rápida em direção à mesa. Andava nas pontinhas dos pés. Uma bailarina mirradinha e desiquilibrada.

Yan queria saber a origem do nome dela, tinha interesse no assunto. Um jeito de começar a conversa, mas principalmente de contar o significado do próprio nome. Tinha muito apreço por esses dados, era seu cartão de visita. Yan, nome de origem hebraica, cujo significado é deus gracioso. Queria acalmar Alexandrina, mas ele mesmo estava nervoso. Nunca tinha lhe acontecido isso. Ela está me contaminando, pensou. Respirou fundo, uma, duas, três vezes. 

Ele deseja se casar, até então não tinha conseguido uma noiva. Nem mesmo tinha namorado alguém. Nem beijado. Não estava interessado no beijo nem no corpo da mulher. Queria casar, ter alguém que o esperasse na volta do trabalho. Yan tinha certeza que o nervosismo de Alexandrina era o sinal que esperava. 

Esse pensamento acalmou-o.

Alexandrina também deseja casar-se, ardentemente. Mas os olhares dos homens… Até então, passavam por ela qual brisa preguiçosa, indo pousar adiante, em alguma outra mulher, onde se fixavam, ou então em lugar nenhum, onde se perdiam.

Jamais tinha sido beijada. No ônibus lotado, podia sentir o cheiro deles, o calor de seus corpos, quando então tremia mais ainda, de prazer e desejo.

Yan entendeu rapidamente que não precisaria falar com Alexandrina; ela também entendeu que não precisaria falar com ele, nem contar sua vida, nem mesmo seu passado, que, de fato, jamais existiu. 

Foi um encontro silencioso, de almas que finalmente se unem depois de muita procura. Ela, a alma exaurida, encontrou abrigo e descanso. Ele altivo, satisfeito em cumprir o destino de seu nome: conquistar pessoas e admiradores, desenvolver capacidade de organização e responsabilidade. 

O casamento foi singelo, no mesmo salão onde se conheceram. Como não tinham amigos, apenas o juiz de paz e uma testemunha que passava por ali naquele momento. Para Yan, parcimonioso, não afeito a luxos, cerimônia perfeita, ligada mais à essência do ritual: junção de duas pessoas a fim de fundar um lar.

Alexandrina tremia tanto, mal conseguia se manter em pé, as mãos suadas, o buquezinho de rosas parecia vivo, caiu de suas mãos três vezes; três vezes o juiz teve que perguntar antes dela conseguir balbuciar o sim.

Yan não a beijou, só encostou os lábios de leve em sua face. Eram ásperos e duros. Ela sentiu um cheiro que não conseguiu identificar, mas não era o dos homens dos ônibus lotados, quando tremia de prazer e desejo. 

Depois da cerimônia, foram andando, ele mais à frente, ela tropeçando nas calçadas malcuidadas. Deu graças a deus que ele não pegou em sua mão fria e suada.

Pararam em uma padaria, ele perguntou o que ela desejava. Não sabia. Ele pediu um cappuccino grande e um doce recheado com creme amarelo. Ela sentiu uma onda de nojo, tinha medo de vomitar. Sentaram em silêncio, nada precisava ser falado, nada. 

A noite de núpcias encontrou Alexandrina expectante, pura aflição. Uma camisolinha azul cobria o corpinho magro. Esperava, esperava sentada na cadeira do quarto. Yan entrou, não olhou para ela, apagou a luz. Alexandrina foi para a cama, tropeçou, esticou os braços procurando apoio. Deitou-se e ficou esperando, uma eternidade, nem respirava. 

Imaginava, nem sabia o que, não estava mais lá, os olhos abertos na escuridão, não sentiu quando a mão dele tateou seu corpo, não sentiu quando ele cobriu o corpo dela com o peso do dele, não sentiu quando o pênis dele tentou entrar nela e não conseguiu. Não sentiu nada, nada, nada, só um cheiro que não era o dos homens dos ônibus lotados.

Alexandrina, com mãos trêmulas, chorava de gratidão por ter encontrado Yan, tão reservado que nunca falava com ela, tão sábio que nunca a expunha a situações vexatórias, grata por receber presentes úteis no aniversário e nas datas importantes: Proclamação da República, Descobrimento do Brasil, Tiradentes, Dia do Trabalho. 

Hoje mesmo, dia de seu aniversário, ganhou um quilo de camarões miúdos, os mais saborosos, para limpar e fazer um refogado com arroz branco. Em comemoração. 


2 comments

  1. Sylvia, minha amiga! Quanta contenção! Um conto quase sem palavras, de tão pouco que soam… eu diria que apenas balbuciam… Sem gestos, sem acenos, você nos encaminhou suavemente ao silêncio emocional dos seus quase personagens. Triste, angustiante e belo. Seu livro promete inusitadas viagens… Parabéns!

  2. Luiz, amigo querido, obrigada pela leitura cuidadosa, tão sensível aos afetos de Alexandrina, que veio ao mundo para cumprir o destino que lhe cabia.

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