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Lourdes Gutierres na antessala

Conhecer detalhes da Sala São Paulo? Claro! Com o mapa mental construído a partir de minha experiência ao assistir a um concerto da Osesp, rumei em direção ao meu porto, a Sala. Estava a poucos metros, quando ondas emergiram subitamente e me lançaram em um mar de estranheza. Sem a habilidade de Amir Klink, permaneci à deriva. Estaria em Ruanda? Ou seria o Haiti, após a passagem do furacão Mathew? Demorei a reconhecer aquele espaço encapsulado, fruto da desigualdade social: terra do crak, a “cracolândia”, onde há muito tempo se vendem e se consomem drogas. Não tinha acabado? Não foi assim anunciado nos jornais pelas autoridades responsáveis? Mas ainda existe, foi o que pude constatar naquela tarde. Inimaginável área onde pessoas, muitas delas, andam de um lado a outro, em idas e vindas.  Sem conseguir desviar o olhar, tentei identificar os que estavam próximos. Pareciam não se importar com minha presença, nem com a de ninguém.  Aqueles alojados nas calçadas já teriam perdido a força? Alguém movimentava as pernas tentando se encaixar embaixo de um guarda-chuva aberto no chão. Uma moça circulava com a gravidez exposta. Outros se abrigavam em lonas. Muitos se estendiam ao relento, com apenas um cobertor.

Sem teto, sem família, ao deus-dará, como pode isso acontecer? Ninguém chega à fase adulta sem ter recebido cuidados.  Alguém amamentou o bebê, deu papinha, ensinou a andar, a falar. Sabem ler e escrever? Possivelmente, sim. Fosse tartaruga, ao romper o ovo, correria direto para o mar. Fosse sabiá, em pouco mais de um mês, arranjaria seu próprio sustento. Fosse tigre, aos dois anos, caçaria sozinho. Humano é diferente. Demora a crescer, demora a aprender, demora a se reconhecer, precisa do outro. Toda gente teve acolhimento algum dia, sem dúvida. Onde se deu a ruptura na vida dos que se abrigam nesse território?

Pesquisadores consideram o crack uma droga perigosa; produz sérios danos no cérebro, encurta a vida. Entre os principais efeitos constatados em usuários estão surtos psicóticos e alucinações, dizem.

Aqueles que estavam à minha frente sabem disso? Pareciam aprisionados no mundo interior, alheios ao que acontecia ao redor: prostituição no parque da Luz, dois carros trombados na esquina, atraso do trem, atropelamento do ciclista na avenida Duque de Caxias, concerto na Sala São Paulo. Onde é tudo isso?  E das mazelas do país – o quê? Na fumaça do cachimbo a realidade se dispersa.

Ao se referir ao problema da população daquela região, o professor da Unifesp, o médico psiquiatra Dr. Dartiu Xavier, afirmou: “Elas são pessoas que estão ali porque elas não têm onde morar, não têm o que comer, não têm trabalho, não têm acesso à saúde nem à educação e são excluídas da sociedade”.

A ciência explica o processo da dependência química: a droga penetra nos receptores do neurônio e transmite a sensação de prazer, o cérebro acha que tudo o que dá prazer é bom para o organismo.

Como distinguir a realidade no processo de alucinação? A mulher de saia florida com enfeite na cabeça, requebrando, estaria se julgando Carmen Miranda, com seus adereços e requebros a perguntar: “O que é que a baiana tem?”.  E aquele, de barba longa, olhos baços, com um cajado, gestos bruscos, poderia ser Antônio Conselheiro? O velho arrastando um saco de juta imaginava-se Papai Noel levando presentes às crianças carentes na noite de Natal? Como decifrar os enigmas da alma?

O documentário Hotel Laide mostra o trabalho que estava sendo realizado para a recuperação voluntária dos usuários que desejassem deixar a droga. Acompanha o acolhimento de uma moça no hotel, que aparenta ser aconchegante: sofás, quadros nas paredes, vasos com flores. Típico daquelas casas de subúrbio, enfeitadas, sempre com um café disponível para visitas. A moça é recepcionada por outra moradora, em fase de recuperação:

     – Você sabe, já fui zumbi. Ela estava tentando deixar o vício.

     Ao falar de si, a nova voluntária relata:

     – Só decepção, decepção… A vida não é um conto de fadas.

Em uma das cenas, a mulher caminha pelas ruas repletas de drogados, levando uma criança no carrinho cor-de-rosa. Durante o percurso, ouvem-se repetidos alertas:

     – Olha o anjo aí!

     – Olha a criança aqui!

     – Ô, anjo!

  Ante a inocência, tratam de esconder o cachimbo do crack.

 Essa cena me transportou para o chão nosso de cada dia e, refletindo a respeito do futuro daquela criança, ousei indagar: o “anjo” conseguirá transpor a antessala? Sentará na poltrona confortável da Sala São Paulo? Ao ouvir a sinfonia Ressureição de Mahler, conterá seu choro? Ou permitirá que as lágrimas escorram pelas vielas de sua história de vida?

Um incêndio destruiu o hotel. Móveis, roupas, quadros, paredes… Tudo queimado. Procurei entre os destroços vestígios da fé e da esperança.

Por enquanto,  só cinzas.

Essa crônica foi publicada no livro À sombra da cidade, de Lourdes Gutierres, pela editora Labrador, que reúne crônicas amorosas, compassivas e olhar agudo sobre essa São Paulo imprevisível e cheia de mistérios. Aproveite para comprar. É só clicar aqui no link

3 comentários

  1. Um retrato sem adereços de São Paulo e de tantas cidades brasileiras. Parabéns, Lourdes, por nos lembrar que eles são ( e desejam ser) seres humanos assim como nós outros.

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