Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Magia, por Sylvia Loeb

Os pés pisam firmes na borda molhada do barco. Por entre os dedos, a corda esticada sobe pelas pernas do barqueiro e passa pelas mãos, que com braços retesados prende e doma o mastro bravio. Os dedões movem-se para cima e para baixo, fortes e determinados, segurando e dirigindo a corda esticada que dá direção ao saveiro; a corda também trança os outros dedos que têm serventia,  bando de animais na faina da sobrevivência. O arco do pé, em curva elegante, apoia-se em dois pontos: de um lado, nas falanges torneadas e musculosas e de outro, no calcanhar redondo. Os pés espalhados dão apoio ao que está em cima: além de sustentar o próprio corpo, segura o firmamento. Cada veia, cada vaso de sangue, cada movimento da respiração forte e controlada, reflete-se nos pés que dançam ao som e ritmo das ondas. A pele, membrana grossa e tisnada, brilha. Debaixo dela cicatrizes profundas atestam a luta no mar, dando ao conjunto aparência de couro velho, de casca de árvore. Não sobra gordura no barqueiro, nem carne, nem pelanca. Magro e seco, os pés, instrumento de trabalho revelam toda a força e coragem de Poseidon, filho de um verdadeiro Titã.  Ao desembarcar, no final de um dia de trabalho, Poseidon transforma-se em João, o barqueiro do delta do Parnaíba.

 

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

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