Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos Escritores 50+ Lourdes Gutierres A caverna de Chauvet Copyright Chauvet Grotte Ardèche

Na caverna de Chauvet,
por Lourdes Gutierres

Pela abertura da montanha, o caçador entra na caverna com pigmentos, gravetos, peles, lascas de pedra. Lá fora, o gelo cobre a terra; dentro, o abrigo de silêncio e solidão. Diante da parede fria, ele dá alguns passos – retrocede, para, vacila. Enfim, começa a me desenhar em traços firmes. Primeiro, o contorno, depois, patas e chifres; por último, meus olhos. Então, contemplo meu criador. É um homem frágil, seus pensamentos de terror e fúria aqui na caverna se aquietam. Em seu olhar sereno, percorro o longo caminho que nos separa, não há mais estranhamento entre nós. Lá fora, ele persegue, machuca, mata. Aqui, sinto em seu toque delicado a carícia de sua mão; percebo sua ansiedade para me tornar tão real quanto possível. Não me quer imóvel, pelo desnível da parede me põe em movimento. Sabe que não vou atacá-lo, despe-se do medo, permite nosso enlace.

Trinta mil anos depois, um grupo de pessoas com capacetes, lanternas e equipamentos entra na caverna por uma pequena fresta. Lá fora, morte, guerra, delimitação de território; dentro, a avalanche provocada por abalo sísmico obstruiu a entrada, permaneci isolado, no escuro. Agora, rompe-se a solidão. Todos caminham cuidadosos, buscam vestígios pelos cantos, se deparam com ossadas de animais, mais tarde me avistam na parede. Percebo seus olhares inquisidores. Do meu criador, só eu sei. Tenho guardado por milênios seu cheiro, seu calor, o pulsar de seu coração; sinto ainda sua respiração oscilante. Só eu posso dar as respostas que o grupo procura. Por amor, permaneço em silêncio.

10 comments

  1. Em metáfora sensível e de uma ternura maravilhosa, a autora traz o depoimento de que a Natureza se compadece de nós, Humanidade, apesar de todo mal que provocamos a ela. Parabéns!

  2. Foi aberta uma fresta na pedra que abriga a caverna de Chauvet de onde nos é dado testemunhar o segredo de amor de uma obra de arte em relação ao seu criador. Tocante.

  3. Que sensibilidade ! O texto nos remete ao nosso longínquo passado, como era e como é atualmente o o nosso comportamento . O texto nos compromete a refletir sobre nossa atuação como seres humanos que somos e nossa responsabilidade sobre isso.

  4. Primor de ponto de vista. A delicadeza de uma obra de arte. E esse sentimento que perpassa por todo o texto. A serenidade de quem dominou o tempo e vai viver eternamente. Magnífico. Obrigado, Lourdes.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *