Este artigo é parte do Clube dos Escritores Blog Clube dos Escritores 50+ Julia Risi Sergio Zlotnic Não preciso mais

Não preciso mais, de Sergio Zlotnic

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[no passado bastante remoto {priscas eras}, já houve quem apontasse meu “amor à precisão”. Mas quem é perfeito?]

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1- Quando fui procurá-lo, em 2003, falei tudo errado. Bússola torta.

Não! Talvez não fosse assim, talvez não estivesse errado. Eu é que buscava uma verdade inatingível –, a tradução da minha essência.

Vou contar: No primeiro encontro, expliquei direitinho. Tintim por tintim. Sem papas na língua, entrei com tudo. Quem sou. De onde vim. Meus sonhos. Traumas. Minha história, amores, enfim. Pareceu que ele entendeu bem. Gostei.

Porém, logo que saí dali, de imediato, percebi que havia omitido inúmeros detalhes. Sem querer, não de propósito (claro).

Voltei noutro dia, expliquei melhor. Em minúcia. Não queria deixar nenhuma mentira no ar. Nenhum mal-entendido. Ser honesto. Sem sombras. Para depois não ser acusado de má-fé (sou de boa família).

Eu sabia que o processo era longo e lento. Sabia que não havia garantias de que a transação se concretizasse. Sabia dos riscos. Muita coisa envolvida. Não posso alegar que não estivesse avisado. Tinha noção de que os resultados dependiam dos meus investimentos. Da aposta. Da fé.

Então, perseverante, voltava lá. Explicava. Novos informes. Várias vezes.

Mesmo assim, saía com a persistente impressão de que ele não havia compreendido. Pelo menos, não completamente. Daí retornava a cada vez, incansável, com erratas:

O Senhor, por favor. Onde eu disse isso, entenda aquilo. Aquele relato não foi tão limpo. Não faz jus. Há nuances que devo acrescentar. Vale a revisão. Altere este item. Desconsidere o arquivo anterior. Fique com este agora aqui. Carimbe no campo abaixo. Estamos na mesma página? Rubrique. Confirme recebimento. Desculpe, foi o autocorretor. Falei alho? Tome por bugalho. Dê-me o canhoto. A equação não fecha? Vá ao tabelião. Cheque a assinatura. Confira o saldo. Protocole já. E o câmbio? Observe a paridade das moedas. O vaivém das commodities. As narrativas têm de ser reeditadas. Recorte e cole. Passe uma borracha nisto. Não está mais aqui quem falou. Quanto lhe devo?

2- Assim, no decorrer de sete anos, a cada vez, eu ia precisando melhor a estória. Tornando-a mais exata, talvez. Mas fracassando sempre.

Como se, na primeira reunião, eu tivesse contado uma versão equivocada que me aprisionara. A partir dela – e capturado por ela -, só me restava tentar ser mais preciso, e mais preciso, e precisar melhor, e melhor ainda e novamente, e de novo e de novo, corrigindo arestas do que dissera, a cada oportunidade. Com vistas a atingir a máxima transparência. Quem sabe?

Mas ele com aquele semblante que não esclarece -, nem sabemos se o assunto está interessando, nem se está entendendo. Nem se está ouvindo. Ou dormindo. Mal falava. E, raramente, quando dizia alguma coisa, o tal sotaque (italiano?).

Eu, de meu lado, consciência tranquila, boa índole, sempre buscando um pouco mais de nitidez, duas vezes por semana. Com esforço e dedicação. Percorrendo labirintos, uma vela na mão. Barbante. Migalhas de pão.

Com asseio, implicado, polido; observando as normas, submetido às tábuas da lei. Afinco diuturno. Nos trilhos, boa vontade ilimitada. Higiene (abluções). Com educação, colaborando. Sorriso no rosto inclusive, quando era o caso. Vertendo lágrimas, quando a comoção pedia.

Repisando, repassando tópicos, explanando pontos. Gráficos, planilhas, tabelas, curvas, tendências. Pequenas palestras, demonstrativos, extratos, dossiês, letras miúdas. Taxas, flutuações, escrituras, minutas (trinta). Cláusulas, clausuras, rodapés, rapapés.

Compartilhando até mesmo intimidades (sigilosas). Confissões (pitorescas). Introduzindo parênteses (curiosos). Derivando em colchetes (benfazejos). Adjetivos (apropriados). Registrando em atas. Fazendo constar nos autos (e até nos anais). Formiguinha laboriosa.

Tudo de que dispunha – e um pouco além. Dobrado e do avesso. O impossível vezes mil. Sem jamais, entretanto, atingir o intuito original. Não chegava a lugar nenhum. Girava em falso. Parafuso espanado. Mapas velhos. Mapas mofados.

Vamos combinar que paciência tem limite? Houve o dia em que, enfim, me enchi. Esse cara não vai entender nada nunca, pensei (convicto). Ele não está nem aí. Óbvio.

Quer saber? Vou-me embora. Estávamos em 2010. Desisti de precisar.

Assim foi o fim da minha análise.

Não preciso mais.

[sucesso]

*

[a Contardo Calligaris (em memória) – { com amor} <3 …]

Blog Clube dos Escritores 50+ Julia Risi
A imagem lá no topo e a foto aqui em cima são da artista Júlia Risi. Formada em Arquitetura pela FAUUSP, Julia Risi, entre um e outro projeto, começa a orientar-se também pelo campo da psicanálise.  

5 comentários

  1. Slotzzzz querido, lembrei da minha análise, durante 7 anos, 2 vezes por semana nesta mesma devoção, silêncio profundo e presença intensa com leve sotaque nortista do meu analista a quem devo gratidão impagável.

  2. “Como se, na primeira reunião, eu tivesse contado uma versão equivocada que me aprisionara.”
    Que maravilha essa afirmação. Acho que tenho vivido tentando tornar realidade uma pessoa que criei desde o começo. Descartá-la, já é impossível. E como é difícil manter esta invenção.
    Lindo texto, Sérgio. Excelente homenagem ao Contardo.

  3. Que lindo (des)encontro amoroso!! Adorei e marejei, Zzzlot!!
    A ilustração tá demais tb! Me lembrou alguma ilustração de algum livro de Dostoiévski ou algum outro russo rsrs. Parabéns, Julia!

  4. que lindo esse texto! adoro o jeito como você narra e reinventa a vida e a gente vai junto. fiz sete anos de análise te lendo <3 o impossível vezes mil.

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