Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Nossos velhos. Nós, velhos. E o meu pescoço,
por Regina Valadares

E de repente, eu pensei isso tudo. Pensei por pensar, porque penso muito e gosto de pensar. É o meu programa favorito. Se não fizer sentido, não ligue. São só pensares

Regina Valadares

Chego apressada, trazendo uma sacolinha com dois croissants e um vidro de geleia. Eles me recebem animados. Adoram ganhar coisas de comer. Eu, já me desculpando pela curta visita, sugiro que tomemos uma cafezinho, porque combinei de fazer não sei o quê, então não posso me demorar. Porque às vezes é doloroso ficar, então sempre aviso. Ajudo um a sentar, a outra, mais lépida, já tomou seu lugar e agora todos em volta da mesa, xícaras cheias, bolo no prato, finalmente olho pra eles. Olho de verdade. Dois velhinhos. Meus primos. Os mais velhos da família. Convivo com eles desde que nasci. Reparo as manchinhas na careca dele, ela está mais frágil, as mãos mais aflitas, o olhar menos esperto. Puxo uma história antiga, deixo que me recontem, pergunto se lembram de fulana, conto que morreu. Eles riem e dizem coitada. E eu vou ficando, embalada nesse jogo. Qual o nome daquele parente que a filha casou com político? Um diz uma coisa, a outra corrige, arrisco um palpite. E quando um de nós acerta, celebramos como um gol do brasil. E aí vem outra história, achamos graça e o tempo vai passando. Eu vou ficando.  Tantas lembranças em comum. E nem preciso desmentir o compromisso que não tinha porque eles já esqueceram que eu disse que tinha que sair logo. Me despeço com eles já cansados da tarde agitada. Essa foi uma boa tarde. Saio com o coração apaziguado, pensando, pensando… Um dedinho de prosa, um tantinho de paciência, um abraço apertado. Parece tão pouco, mas tão difícil de caber no nosso dia a dia.

Envelhecer tem tomado todo meu tempo. A Natalia Ginsburg escreveu um texto magistral chamado A Velhice. Horas tantas ela diz

“Essa nossa lentidão em envelhecer contrasta com a rapidez vertiginosa do mundo que gira ao redor: a rapidez com que lugares se transformam e jovens e crianças crescem…”

Tenho a sensação de que corro contra o tempo. Tem que baixar o aplicativo para fazer isso e aquilo, tem que dominar o controle remoto da tv que agora quer falar comigo, tem que preencher o formulário online. O zoon caiu. Quem é o host? Aceita? Sinto que envelheço a cada atualização do celular. Tenho medo do relógio que ganhei do meu filho que faz tanta coisa que vem com 3 caderninhos de instrução! Até o ar condicionada tem tantas opções de esfriar que me deixa tonta. Eu luto bravamente e quando me sinto derrotada peço ajuda aos universitários, que resolvem tudo tão rápido! Que ódio! E me preparo pra próxima batalha. Meu lema é: arrancar os cabelos, sim, mas desistir jamais.

Nesse mesmo texto Natalia Ginsburg afirma que nós, velhos, não nos espantamos mais. E eu me espantei. Porque me espanto diariamente. Com a minha cara em constante mutação. O meu andar, o pensar, o sentir. Umas coisas melhoraram, outras me exigem mais atenção. Outro dia me espantei ao constatar que já não pulo amarelinha com facilidade. E que depois de dançar duas músicas agitadas preciso me sentar um pouco pro coração não sair pela boca. Nem vou falar do constante espanto diante das notícias, dos descalabros que temos presenciado. Antigamente, quando eu olhava as fotos dos meus filhos pequenos me dava uma tristeza do tempo ter passado tão rápido. Hoje me enche de alegria ver que bons tempos eu vivi! Acho o mundo horrível, o ser humano não deu certo, mas gosto muito de viver e cada vez gosto mais de mim, de quem eu sou hoje. Do meu cabelo branco, das minhas rugas, da cintura mais larga, das pintas, ah, quantas pintas… Tenho um amigo que me prova por a+b que não está velho – como se velho fosse um xingamento. Não perdeu um fio de cabelo, não engordou um grama, não bebe, não fuma, anda três vezes por dia. Pois eu envelheci, digo pra ele, com muito orgulho. Engordei um pouco, bebo, fumo, jogo, invento moda, me desespero e me divirto na mesma medida. Tenho mais tempo e mais paciência. Sou uma velha bem contente e disposta a continuar descobrindo coisas em mim, no mundo, no viver. Só clamo aos céus uma coisa. Que nunca me falte um dedinho de prosa e um abraço apertado. Pra mim, viver é sentir e tenho gostado muito do caminho que tomei. Só meu pescoço é uma desgraça. Mas isso é outra história que um dia eu conto.

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