O Banho, por Marta Soares - Sylvia Loeb - Sylvia Loeb responde - joão caldas

O Banho, por Marta Soares

D. Yayá, diagnosticada como doente mental, foi confinada em sua própria casa durante quarenta anos.

Ofélia? Nua, padecendo de amor e de loucura, entregando-se à morte levada pelas águas?

Pietá? O Cristo descido da cruz, agonizando no colo da mãe?
Não.
Marta Soares em mais uma de suas performances radicais, no limite do quase insuportável.

Entramos em uma grande sala escura, no meio da qual encontra-se uma banheira branca cheia de água, onde boia, totalmente nua, Marta Soares/D. Yayá.
Tão nua, tão frágil, tão D. Yayá que, ao ser diagnosticada como doente mental, foi confinada em sua própria casa onde permaneceu isolada, por ordens médicas, durante quarenta anos.
Se louca era, mais louca ficou, imaginamos, ao ser destituída de tudo o que lhe pertencia, a começar da própria subjetividade.

O olho ávido do espectador, diante da nudez despudorada, escrutina cada pedaço do corpo à procura de traço pornográfico, mas só encontra a entrega de um ser que não tem mais esperança. A curiosidade do olho esmaece dando lugar à ternura e à piedade diante dessa mulher tão desamparada que, ainda assim, não deixa de lutar, de se contorcer em espaço tão exíguo, procurando uma saída impossível.

A luz desenha a passagem do dia, começando ao amanhecer e no despertar de D. Yayá, que inicia sua jornada desesperançada na tentativa de sair da prisão a que foi submetida.
Com movimentos sinuosos, feito peixe em aquário, que em momento de desespero tenta se atirar para fora da gaiola de vidro, D. Yayá dança diante de nossos olhos sua dança sem fim.

Banho de batismo, banho de purificação, banho de limpeza, todos negados a D. Yayá. Água na banheira, água presa, água parada.
Os olhos do espectador procuram se distanciar da angústia gerada pela impotência da protagonista, pousando em grandes painéis de onde projeções de vídeo, imagens realizadas na casa de D. Yayá, nos dão algum repouso. A silhueta desfocada e fundida nos espaços do jardim nos revela D. Yayá/Marta Soares, em andanças infinitas enquanto o tempo escorre devagar, uma hora inteira… Sessenta minutos, a que somos submetidos, fascinados, à epopeia dessa mulher.

Quando o sol se põe, a luz esmaece e lá ficamos, juntos com D. Yayá, na noite escura, à espera do amanhecer, mais uma jornada sem fim.

Pesquisa extensa e intensa norteia os trabalhos de Marta Soares, que usa o corpo como suporte de sua arte. Sem concessões de tipo algum para facilitar ou seduzir o espectador, seu espetáculo resulta em beleza deslumbrante pelas contorções de um corpo habituado à dança/teatro e ternura intensa pela figura patética de D. Yayá.
O som de Lívio Tragtenberg e a luz de Wagner Pinto desenham o cenário feito de som, luz e sombra do espetáculo O Banho.

A Oficina Cultural Oswald de Andrade abriga a Ocupação Marta Soares.
Vestígios, levada em Março, e O Banho, em Março/Abril. Deslocamentos em Maio e Les Poupées em Junho, nos aguçam a curiosidade e o desejo de viver mais essas experiências que nos propõe a performer, em seu trabalho fora do comum, longe do circuito comercial.

Foto: Marta Soares em “O Banho” – João Caldas

 

Sylvia LoebSylvia Loeb é psicanalista e escritora. Visite seu site em sylvialoeb.wordpress.com, acesse sua página no Facebook SylviaLoeb_escritora ou escreva para o e-mail [email protected]

One comment

  1. Loeb! vc escreveu sobre o espetáculo de Marta Soares! Que bom! O espetáculo fica melhor com o seu texto – e localizei algumas coisas que vc disse logo depois, naquela noite. É muito bom identificar os elementos da gênese de um artigo – aquelas ideias que estiveram na base, como impressões fugidias [e esvoaçantes e imprecisas]. Esses fragmentos depois se organizam no artigo [trabalho da escritora!]. Muito bacana seu olhar, e o modo como lê o que assistimos – inclusive a indiscrição dos olhos que procuram uma pornografia ausente do corpo nu na banheira [de carpas!]. Lembrei do olhar que fita o atropelado [foi vc quem disse – que seria pornográfico…, ou outro adjetivo; qual?]. Enfim, compartilhei seu texto na linha do tempo no meu facebook, bjo ps1- senti falta das carpas e do guefiltefish…

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *