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O educador,
por Lourdes Gutierres

“Aos  esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles  lutam”

Paulo Freire                                                                                                                                                                                                                               Uma coisa é certa, moço, o homem sem leitura é cego de vida. Enxerga, mas não vê o mundo, desconhece o sentido das coisas; não dá conta sequer do que se passa ao redor do seu roçado. O certo e o justo vêm dos costumes, aprende-se desde menino. Como é por essas bandas? Trabalhar duro de sol a sol e agradecer pelo alimento, mas a bem dizer, isso nem sempre acontece;  faltam trabalho e comida, principalmente na seca. O conhecimento chega pelo que se ouve falar, disso há fartura. Dos primeiros que vieram da África, a gente sabe muita história. Cada um tem sua crença, o jeito de preparar as coisas da vida, isso tudo ninguém tira de nós; passa com o sangue, com as falas, com o jeito de preparar o viver. A sina do trabalhador continua como herança dos que contam apenas com a força dos braços, mas, está surgindo sinal de mudança, sim, senhor. Falam de um novo projeto do governo, para melhorar a vida do povo, e acabar de vez com essa nossa cegueira, de não entender o que está escrito no papel. O senhor já imaginou todo trabalhador conhecendo letras, leis? Saber de justiça, de direitos, já pensou nisso?

O que posso dizer é que quando chegou a novidade da escola, quase ninguém acreditava. Coisa difícil?, qual o quê!  Não demorou muito, apareceu por aqui uma turma com jeito para o ensino, sim, senhor –  em 45 dias ensinaram 300 pessoas a ler e a escrever.  Pode isso, moço?  Em outros lugares? Ah, a mesma coisa! Não era só promessa, foi tudo concretude. A professora disse que era um método novo de um senhor de muita sabedoria, o tal de Paulo Freire, conhece?

Comigo, falo de coração, aconteceu um milagre. Em pouco tempo, já reconhecia aquele montão de letras. Comecei a juntar uma palavra com outra, foi aos poucos, só no raciocínio. Cana. Lavoura. Açúcar. Tudo foi se ajeitando na cabeça.  Acredito que o nosso trabalho continua o mesmo, mas o destino do homem do campo agora vai mudar. Chegou o tempo de justiça, ah, isso chegou!

 – Da voz no campo, fez-se o registro, que o tempo não apagou, nem apagará.

4 comments

  1. Linda e justa homenagem a Paulo Freire, Lourdes, na voz de um homem do campo!
    Alfabetizar para dar consciência à população na hora de votar, para conhecer seus direitos contidos na lei e poder se defender melhor! Parabéns!

  2. Linda, oportuna e justa homenagem a Paulo Freire, Lourdes, na voz de um homem do campo!
    Alfabetizar para dar consciência à população na hora de votar, para conhecer seus direitos contidos na lei e poder se defender melhor!

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