Blog Clube dos Escritores Eder Quintão Perguntas sobre o Corona

O que você quer saber sobre o corona mas tem vergonha de perguntar?
por Eder Quintão

Desculpem-me amigos dos FiftiesMais. Tomo a liberdade de usar o espaço de crônicas para falar de saúde, mas são tantas as indagações que recebo que não consigo ficar em silêncio.

A pergunta hoje é: objetos que tocamos vindos ou pertencentes ao ambiente podem nos contaminar com Covid-19?

Para responder valho-me de site na internet. O mais importante é o que contém milhares de revistas científicas devidamente registradas na área médico-biológica que consulto semanalmente há várias décadas: chama-se Pubmed/Medline (você pode abri-lo via Google) colocando palavras-chave.

Coloquei no Pubmed/Medline: “Covid-19 Coronavirus transmission on surfaces”.

Em 01/06/2020 apareceram 75 artigos publicados em muitas revistas científicas registradas. O assunto é tão dinâmico que se o procurasse há um ano provavelmente nada encontraria e se buscá-lo daqui a mais um mês talvez apareça o triplo de artigos. Observa-se que a maioria dos artigos lida com Covid-19, mas não se prende à minha pergunta. Então tive que ler rapidamente seus títulos e encontrei o que desejava.

Limitei-me a artigos que fazem compilações ou revisões de outros artigos, melhor dito, analisam vários outros trabalhos (chama-se a isto meta-análise). Confesso que fiz assim por uma certa preguiça pois no assunto que leio hodiernamente fico atento, sem exceção, aos mínimos detalhes. Sei muito bem que revisões podem embutir ideias dos autores na inclusão de trabalhos que se coadunam com seus preconceitos. Daí uma frase típica usada em ciência e que repito a meus alunos: pode-se mentir usando boa estatística.

Nada contra a ciência: ela é assim mesmo. Pode ser verdade transitória: não resistir ao tempo. Mas, de qualquer forma ciência é distinta de fé. Esta é eterna, imutável, indiscutível. Ciência se desenvolve aos saltos, bem ou mal- sucedidos, pois todas suas conclusões requerem comprovações. Isto é a essência do processo científico. É achismo o que não se comprova, como a homeopatia e hidroquicloroquina, ou fé religiosa que não a demanda, pois crença é impermeável a contestação. Exemplo de imaginação fértil que se fez ciência: Einstein calculou que a luz se comportava também como partícula e como tal estava sujeita à atração da gravidade; pois foi uma experiência posterior de eclipse que mostrou o desvio da luz de uma estrela provocada pela força de gravidade exercida pelo sol sobre a partícula de luz (que pode ter massa e ser ao mesmo tempo onda…. Durma-se com essa…).  

Voltemos ao corona…

Minha motivação maior foi veio por intermédio de um amigo que deixara de assinar jornal temeroso que poderia carregar corona para dentro de casa. Outro amigo tira os sapatos para entrar em casa. Precisei assegurá-los que estavam se preocupando com um pobre corona cadáver, incapaz de infectar. Ou outro que, caminhando para tomar sol, se recusa a passar próximo ao estádio do Pacaembu por causa do hospital para corona. Inútil dizer-lhes que as chances de se contaminarem nessas situações são iguais a receberem um raio na cabeça duas vezes no mesmo lugar, ou tirarem a sorte grande duas vezes na mesma semana.

Vocês verão algumas experiências muito didáticas que aparecem na TV nas quais o cidadão, sem máscara, bota na boca um pó fluorescente e espirra. A fluorescência mostra os micro-grãos do pó, até tão diminutos quanto um vírus, esparramados à sua volta em todos objetos, incluindo seu próprio rosto. A máscara impede que isso aconteça. Sob esse aspecto a experiência é utilíssima, mas o pó não é ser vivo, e fica ali imutável e inerte. Vírus pode ter o tamanho do pó, mas tem vida; quando morre, isto é, rompe sua cadeia de RNA, deixa de ser vírus.

DNA são nossos genes e tão resistentes a intempéries que é possível copiá-los até de ossos de fósseis petrificados. Vírus podem ser DNA ou RNA. Covid-19 é RNA. Uma diferença fundamental em relação ao DNA: RNA degrada-se em semanas mesmo guardado a -70 graus C, em dias dentro de uma geladeira comum (-4º C), em horas à temperatura ambiente, e em minutos dizimado pela luz solar pois ela contém radiação ultravioleta, o que equivale a jogar o vírus numa fogueira. Primeira conclusão: praia com sol é um espaço seguríssimo desde que um contaminado não tussa na cara do vizinho! Se todos lá estiverem com máscaras e não se derem as mãos Copacabana é tão segura quanto o confinamento em seu apartamento. Mas se o governo liberar a praia, o povo que não lê Pubmed/Medline entenderá que pode fazer festinha convidando todos os amigos que não tenham febre…

Mas e se o doente de Corona espirrar sobre o pacote de manteiga, o invólucro de papelão do supermercado, o corrimão da escadaria do prédio, o chão da calçada em que pisam nossos pés? Devo tirar os sapatos ao entrar em casa? Ou ainda, o vírus esparramado se mantém esvoaçante à entrada do elevador? E se beber no mesmo copo de um contaminado?

Foram essas questões a motivação de minha busca ao site e aparecem com as referências bibliográficas de minha pesquisa. Negritos em palavras ou frases são meus.

Traduzo literalmente tudo do inglês. Mas chamo a atenção do leitor. Sempre ficar atento ao prestígio da revista que é definido por seu Fator ou Índice de Impacto que basicamente é a frequência com que seus artigos são citados. Revistas de alto impacto, 10 ou mais, tem muita credibilidade, como Nature, Science, Lancet, New England Journal of Medicine (NEJM) e outras. De minha lista abaixo apenas um artigo no importante NEJM: Fator de Impacto 40!   

O primeiro artigo (Eslami H, Jalili M. The role of environmental factors to transmission of SARS-CoV-2 (COVID-19). Version 2. AMB Express. 2020 May 15;10(1):92):

“Quando a temperatura mínima do ar ambiente aumenta 1 ° C, o número acumulado de casos diminui 0,86%. De acordo com as evidências mais recentes, a presença de coronavírus no esgoto foi confirmada, mas não há evidências de que seja transmitido através de esgoto ou água contaminada. Além disso, a transmissão através de alimentos, embalagens de alimentos e manipuladores de alimentos não foi identificada como um fator de risco para a doença. De acordo com os estudos mais recentes, a possibilidade de transmissão do bio-aerossol pelo ar foi relatada no ambiente interno da oftalmologia. Os resultados mostram adicionalmente que os bio-aerossóis infecciosos podem se mover até 2 metros. Não há relatos de transmissão por artrópodes que alimentam o sangue, como mosquitos”.

Meu comentário: ambiente de oftalmologia, como outros consultórios médicos é muito fechado. E o que não dizer dos dentários? Acima de 2 metros é menos provável que o bicho nos atinja.

          Apenas partes de outro artigo, visto que cheio de tecnicalidades: (Kampf G, Todt D, Pfaender S, Steinmann E. Persistence of coronaviruses on inanimate surfaces and their inactivation with biocidal agents. J Hosp Infect. 2020 Mar;104(3):246-251):

As transmissões de humano para humano foram descritas com tempos de incubação entre 2-10 dias, facilitando sua propagação por gotículas, mãos ou superfícies contaminadas. O coronavírus pode persistir em superfícies inanimadas como metal, vidro ou plástico por até 9 dias, mas pode ser inativado com eficiência por procedimentos de desinfecção de superfície com etanol a 62-71%…

Meu comentário: a contaminação verdadeiramente comprovada é entre humanos; persistir o vírus por vários dias não quer dizer que ele seja contaminante; apenas diz que seu RNA é ainda encontrado, o que não surpreende.

Outros autores (van Doremalen N, Bushmaker T, Morris DH, Holbrook MG, Gamble A, Williamson BN, Tamin A, Harcourt JL, Thornburg NJ, Gerber SI, Lloyd-Smith JO, de Wit E, Munster VJ. New England Journal of Medicine. 2020 Apr 16;382(16):1564-1567):

“O SARS-CoV-2 foi mais estável em plástico e aço inoxidável do que em cobre e papelão, e vírus viáveis foram detectados até 72 horas após a aplicação nessas superfícies, embora o título do vírus tenha sido bastante reduzido…. No cobre, nenhum SARS-CoV-2 viável foi medido após 4 horas e nenhum SARS-CoV-1 viável foi medido após 8 horas. No papelão, nenhum SARS-CoV-2 viável foi medido após 24 horas e nenhum SARS-CoV-1 viável foi medido após 8 horas”

Meu comentário: título é a quantidade de vírus. O encontro de vírus viável após tantas horas nessas superfícies não é demonstração de que sejam eficientes contaminantes; apenas sugere que possam ser; não indica, nem sugere que esta seja a origem da contaminação humana.

Finalmente o que dizem outros (Ren SY, Wang WB, Hao YG, Zhang HR, Wang ZC, Chen YL, Gao RD. Stability and infectivity of coronaviruses in inanimate environments.World J Clin Cases. 2020 Apr 26;8(8):1391-1399. doi: 10.12998/wjcc.v8.i8.1391):

No entanto, resumos sobre a transmissibilidade de coronavírus de superfícies contaminadas para induzir a doença de coronavírus são raros no momento. Esta revisão visa resumir dados sobre a persistência de diferentes coronavírus em superfícies inanimadas. A literatura foi sistematicamente pesquisada no Medline sem restrições de idioma. Todos os relatórios com evidências experimentais sobre a duração da persistência de coronavírus em qualquer tipo de superfície foram incluídos. A maioria dos vírus do trato respiratório, como coronavírus, influenza, SARS-CoV ou rinovírus, pode persistir na superfície por alguns dias. O tempo de persistência em superfícies inanimadas variava de minutos a até um mês, dependendo das condições ambientais. O SARS-CoV-2 pode ser mantido no ar em ônibus fechados sem ventilação por pelo menos 30 minutos sem perder a infecciosidade. Os coronavírus mais comuns podem sobreviver ou persistir nas superfícies por até um mês. Vírus em amostras respiratórias ou fecais podem manter a infecciosidade por um longo tempo em temperatura ambiente. Materiais absorventes como o algodão são mais seguros do que materiais não absorventes para proteção contra infecções por vírus. O risco de transmissão ao tocar em papel contaminado é baixo. Estratégias preventivas, como lavar as mãos e usar máscaras, são críticas para o controle da doença de coronavírus”.

Meu comentário: jamais foi feita em cultura de células experiência de proliferação de vírus corona obtido de superfícies contaminadas com ele. Essa é uma experiência facílima que elucidaria sobre sua infecciosidade e o quanto esta depende do tempo de permanência em superfícies inertes.

Conclusão: deduzam sempre por si mesmos. Temam ignorar mais os fatos do que os vírus. Façam suas estatísticas pessoais: quantos conhecidos se contaminaram e se possível como? Os 12 casos que conheço até agora (contaminados que sobreviveram ou não) ocorreram em ambiente hospitalar restrito em que havia outros casos ou em convívio rotineiro com contaminado em ambiente muito restrito. 

Que este texto amenize nosso profundo tédio na infinita quarentena até que salvos por uma vacina.

Eder C R Quintão 

Nota do editor: Eder Quintão, como você já deve ter adivinhado, quando não está fazendo poesia, é médico                                                                                   

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