Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Os donos da rua: Festa na rua,
por Sylvia Loeb

Escolheram o melhor lugar de São Paulo, uma região antiga, perto da estação de trem, onde foi construído um imenso templo de música. Do outro lado da rua, a uns quinhentos metros de distância, um jardim de árvores frondosas com sombras amigas, onde está abrigado um dos mais belos museus de arte da cidade.

Os convidados são informais, o que me agrada muito. Não há obrigação de roupa de festa, nem é necessário convite, é só chegar. Desembarquei no metrô, ali mesmo na estação de trem, o que facilita muito o fluxo de gente. Já estavam todos, cheguei atrasada, teria me atrasado de qualquer modo, pois dormiram lá, uma espécie de Woodstock, sem música. 

Em compensação, muita bebida e muito crack, muito bom humor, quando não alguma briga, mais barulho do que perigo. A coisa começa e acaba quase imediatamente, na realidade, são da paz. Querem fumar, beber e cheirar. O sol quente convida muitos a dormir, e sem cerimônia, ocupam as calçadas. Alguns levam seus pertences, em geral pouquíssimos, pois são desapegados. 

Não fui convidada, nem precisava, fui bem recebida. Quiseram falar comigo, parei para conversar, mas não estavam interessados na minha conversa. São muito distraídos. 

Depois de um tempo resolvi ir para o museu. Também encontrei festa lá dentro, salas amplas, cheias de esculturas, lindos quadros coloridos pendurados nas paredes. Além dos contrastes gritantes, notei um odor diferente da festa da rua, onde tem mais cheiro de gente. Aqui dentro, para evitar micro-organismos que possam causar infecções, o ambiente é limpo, desinfetado.

Na saída do museu, um dos participantes da outra festa, ajoelhado exatamente diante do portão principal, com as mãos postas em prece chorava alto, aos gritos. 

Fui tomada por imenso ódio. Andei dez passos, voltei para lhe dar um dinheiro. Um vendedor de água, ao lado, olhava pra mim, curioso. Por que ele chora deste jeito? Nada não, bebida…respondeu, sacudindo a cabeça.

Meu ódio passou, atrás dele estava escondida a impotência.

SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!


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Leopoldo, por Bettina Lenci

Passo diariamente ao lado de uma loja com marquise, cujo portão de ferro está baixado. Em frente a essa porta, um catre feito de madeira de construção segue o desenho de uma cadeira de praia. Uma ”chaise-longue” de ripas e encosto inclinado sob um guarda-sol branco conhecido por “ombrelone”. (Por que num país com quilômetros de praia usamos nomes estrangeiros para designar a mobília de verão?). Continue lendo aqui!

O mendigo, por Adília Belotti

Passei por ele voltando para casa. Um belo homem devia ser, por trás da camada acinzentada que lhe cobria o corpo. Muito negro, alto, rijo, os cabelos desgrenhados, longos. Vestia feito manto um cobertor desses também acinzentados, que um dia foram forros de carpete. Havaiana em um pé, descalço o outro. Mas não fazia tanto frio. Manhã de domingo, nenhuma nuvem no céu nesses primeiros dias de outono. Esperava do lado de fora da padaria pelo pão na chapa e café com leite que o dono manda o funcionário oferecer, ó-aqui, mas agora vai circular, amigão! Continue lendo aqui!

A dona da rua, por Sylvia Loeb

Lábios imensos, carnudos, dobravam-se  para fora da boca feito pétalas maduras de flor vermelha desabrochada. Caminhava com passadas largas, pra lá e pra cá, ao longo de uns 20 metros da rua. Sua rua.  Saionas largas sobrepostas, os cabelos escondidos por turbante colorido, falava animadamente com alguém invisível. A cabeça altiva, o peito pra frente, a conversa animada, ar de triunfo. Continue lendo aqui!

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