Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Os Odingás,
por Adília Belotti

Para Regina Amaral e Lélia Lyra.

Os Odingás eram o casal mais velho da tribo. Na verdade, ninguém nunca, nem nas tribos vizinhas, tinha ouvido falar de gente tão velha!

Eram tão velhos que as pessoas não sabiam mais quando tinham nascido, só eles lembravam de si mesmos!

Nunca tiveram filhos. No início, ficaram muito tristes. Os Odingás amavam as crianças tanto quanto amavam ser adultos para poder cuidar das crianças. Mas o tempo foi passando e eles acabaram esquecendo que um dia tinham querido tanto ser pais. Os Odingás passaram direto de serem apenas crescidos para serem…avós! Foi assim. Um dia, um garotinho da aldeia ficou muito bravo com os pais e disse que ia mudar de tenda. Fugiu no meio da noite. Na margem do rio que cercava a aldeia, parou, com medo de continuar. Encolhido e sem saber como recuperar sua dignidade de criança fugida, ele ficou ali, mas já era muito tarde! E o garotinho não tinha planejado para que sua fuga acontecesse junto com a Lua Cheia. A Lua era Nova no céu. E estava muito escuro. De repente, ouviu uma risada. De mulher. Em seguida outra risada. De homem. Do meio do escuro surgiram…os Odingás! Há muitos anos eles não precisavam mais de sono e usavam a insônia para passear e contemplar as estrelas. Quando viram o pequeno, pararam e perguntaram o que ele estava fazendo ali àquela hora. Mas, que coisa mais surpreendente, não pareciam aborrecidos nem com pressa de mandá-lo de volta. Adultos estranhos esses, pensou o menino.

Os Odingás ouviram e lembraram de uma história que tinha acontecido num tempo tão longe que ninguém mais podia dizer se era verdade ou invenção. Mas era uma história tão boa! De uma garotinha que também tinha fugido da tenda no meio da noite. Se perdeu porque ainda era pequena demais para saber dos segredos da mata. E sonhou com um casal de velhos tão velhos quanto a Terra e que quando ela cansou de tanto chorar, ofereceram o colo macio do musgo das árvores para que ela pudesse dormir naquela noite. No dia seguinte, lhe ensinaram o caminho de volta para a aldeia! Não sem antes prometer que um dia ela se tornaria tão grande e tão forte que ia poder sair da tenda e se aventurar no mundo, mas que era preciso paciência e muita coragem para crescer tanto! A história acabou e nem a velha, nem o velho falaram mais nada. Ficaram quietos, ali, bem juntos, um de cada lado do menino.

O garotinho ouviu a história e pensou. Pensou. E pediu aos Odingás se poderiam levá-lo de volta para casa. O que eles fizeram, é claro! Não sem antes contar a ele sobre os nomes das estrelas…eles sabiam todos!

Aos poucos, os pequenos da aldeia começaram a procurar os Odingás quando estavam tristes ou quando não sabiam como continuar crescendo. E eles contavam histórias e essas histórias cabiam direitinho no coração das crianças.

Quando um dia morreram afinal, eram tão tão velhos que tinham visto nascer as maiores árvores da floresta! Mas o Grande Espírito de todas as coisas, achou que eles podiam continuar ajudando as crianças a encontrarem caminhos…e transformou os dois em avós encantados! São eles que surgem nos sonhos das crianças, ajudam a expulsar os monstros que moram no escuro e, quando elas se perdem, estão sempre por perto para ajudá-las a voltar para casa!

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