Este artigo é parte do Clube dos Escritores Blog Clube dos Escritores 50+ Luciano de Castro Os ossos

Os ossos,
por Luciano de Castro

Visitei a vila dos mortos na cidade de Goiás

Quando cheguei, o silêncio conversava com o mistério

Como sou menino educado, não fiquei assuntando a prosa dos dois

Deixei-os a sós e fui caminhar, procurar onde deixaram Ana Lins

Andei por entre as fileiras, vi os pés de espirradeira, erva daninha crescendo nas gretas

Quase caí quando esbarrei em pensamentos do século passado

Parei por alguns instantes e fiquei olhando em volta com olhos letárgicos

Reparei que havia casas simples e casas requintadas

Algumas, de tão simples que eram, nem seriam propriamente casas, apenas pisos

Outras pareciam palacetes de mármore, ornados com placas, retratos, letras douradas

Na vila dos mortos, nitidamente, havia uma divisão de classes sociais

Aí, o silêncio, que encerrara o colóquio, veio e me soprou no ouvido:

Aqui, em cima da terra, as casas são diferentes, embaixo, são todas iguais

Todas elas, as simples e as requintadas, são meras moradias de ossos

Debaixo da terra, os ossos se tornam indistinguíveis

Osso de preto, osso de branco, osso de mendigo, osso de juiz

Osso de latifundiário, osso de posseiro, osso de beata, osso de meretriz  

Tudo vira a mesma matéria: dura, inerte, calcárea

Tudo vira o mesmo despojo: opaco e adormecido nos subterrâneos da memória.

  Goiânia, setembro/21

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