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OUTONOS; PONTO E VÍRGULA
a história de uma lembrança, por Clemari Marques

É possível que um simples vento suave, marcante, fresco; acalmando o sol com as primeiras brisas do outono, traga memórias passadas, num piscar de olhos?

É possível sentir brotar uma lágrima de saudade e, já em seguida, um sorriso maroto?

Um afago no peito, apertado pelas dores causticantes de calores intensos e tempestades do verão…

É possível ser feliz por um átimo de instante; um lapso do tempo; uma magia que, pelo buraco negro da minhoca, te suga para aquele dia, no passado distante?

Apenas porque uma brisa outonal entrou pela janela?

Todo primeiro vento de outono, como que, por magia, me leva de volta, qual um redemoinho do tempo, aquele dia de outono em plena minha primavera.

Parece que quanto mais me aproximo do inverno, mais o outono me puxa de chofre para aquele dia mais feliz da minha vida.

Sinto deliciosamente aquela temperatura agradável;

aquela blusa azul bebê de plush, macia; a calça jeans, o tênis e meia protegendo os pés gelados, do friozinho inicial da criação…

E o som da campainha;

O livro colocado de lado…

Aquele caminho etéreo, em câmera lenta, entre o meu quarto e o portão de entrada da casa.

Todo primeiro céu de azul único, claramente outonal, me faz rever o céu daquele dia, cheio de azul apenas;

sem nuvem alguma;

aquele céu de puro mistério;

puro desejo;

puro encantamento.

Todas as folhas que começam a cair amareladas, alaranjadas, amarronzadas…

nada ainda definitivo; momento de passagem;

adas…particípio passado.

 Tapete do verão para o inverno, amaciando as agruras (do) por vir.

Quase chegando ao portão…

Todo o silêncio do outono.

Vento leve e frio;

Vento de calma;

De alívio;

De respiro.

De espera; de esperança.

A criação acontece no silêncio.

E aquele dia era silêncio.

Silêncio contrito da quaresma; silêncio da morte; silêncio profundo da leitura filosófica; silêncio do momento exato do vir a ser… da ressurreição.

De repente, um único grito cortante, quebrando o silêncio:

A campainha…

Será possível que apenas o cheiro,

Indefinido;

Indecifrável;

dos primeiros dias do outono,

possa trazer de volta

o seu perfume de surpresa,

o meu perfume de esperança.

O cheiro do primeiro amor…

Primeiro amor no outono?

E que volta para acarinhar sua alma,

a todo outono que recomeça…

A lembrar que um dia fui feliz…

A me sentir culpada, porque não é a lembrança do primeiro beijo, da entrada na faculdade, do primeiro gozo, do dia do casamento, do primeiro emprego, do nascimento de cada filho, da primeira conquista, que nem sei qual foi…

É a lembrança da surpresa.

Talvez, a única surpresa real e maravilhosa, de uma vida inteira.

Não que não tenha vivido muitos momentos bons, mas aquela surpresa…

primeira; primária; primitiva; premente…

aquela surpresa;

ah! nunca houve igual.

E todo ano, ao primeiro movimento leve do outono, se ajeitando para a hibernação do inverno, volta novamente a sensação exata de prazer indescritível, diante do totalmente inesperado daquele dia.

A campainha…

O silêncio.

A concentração no livro; a solidão da casa; a falta total de ansiedade, de espera, de expectativa… o momento pleno; inimaginavelmente… nada.

E a faísca primeira atravessou o meu universo.

E deu-se a vida.

Apenas um toque de campainha;

e tudo se fez.

Nunca esqueço.

E todo ano, sou feliz nesse momento.

Exatamente nesse momento.

Podem me perguntar.

Sei exatamente qual é o primeiro dia,

o primeiro céu,

o primeiro sol,

o primeiro vento…

do outono.

Ouço novamente em minha alma,

a campainha.

E sou feliz de novo… e de novo… e de novo…

Há cinquenta anos…

Há cinquenta “sim” misturados a incontáveis centenas de “não”.

Há cinquenta anos, sou feliz;

pelo menos por um dia.

Ou por um único e eterno instante.

Ouço claramente a campainha.

Do primeiro amor;

Do primeiro “se”;

Da primeira esperança de felicidade.

Depois, tudo se desfaz

em névoas indecifráveis;

tempestades destruidoras;

calores intensos;

frios congelantes.

Mas naquele dia

De outono

A campainha toca.

E aquele toque se repete, se repete e se repete.

Fazendo tremer todo o meu ser.

A cada início de outono.

Garantindo que eu nunca esqueça,

De que aquele dia,

Fui feliz.

Por um instante…

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