Este artigo é parte do Clube dos Escritores

PASSEIO IMPÚBLICO, de Luciano de Castro

Anda, meu velho

Vem andar comigo que eu te empresto meu braço

Não se moleste com seu passo claudicante, traga sua bengala de castão prateado

Não se lastime da visão deteriorada, ponha seus óculos de fundo de garrafa e vem

Você sabe que eu sou seu único amigo e que só em mim pode confiar

Vem, vamos deambular e prosear, passear pelo limbo das horas cansadas

Vem, vamos viajar nos limiares do tempo, pelos lugares que só nós dois conhecemos

Não há pressa de partir, faça sua mala calmamente e leve tudo o que quiser levar

Leve seus sonhos amarelecidos, sua esperança despedaçada, seus quinhões de felicidade

Leve sua infância colorida, seus morangos silvestres, seu cão, seus passarinhos mortos  

Anda, meu velho

Anda que a morte inda tarda a chegar

Anda que é preciso andar, é preciso caminhar enquanto haja estrada caminhável

Arrastar-se maleável sabendo que um dia você voará como no tempo em que era nuvem

Por ora, o ritmo é vagaroso, mas na baixa velocidade é que se vê os detalhes da paisagem

Se a paisagem te surge triste e em preto-e-branco, ela é a justa imagem que te cabe agora

Eu sei que todos sumiram e que você ficou invisível aos outros, mas você ainda tem a mim

Estarei sempre aqui, mas entenda que não posso te dar a infusão de ópio ou Santo Daime 

Ofereço-te entretanto o arrimo, seu legítimo imo, o ombro onde chore o que quiser chorar

E lembre-se, meu velho, que a vida resiste e a morte inda tarda a chegar.

7 comentários

  1. … “mas você ainda tem a mim, estarei sempre aqui”… é Deus conosco nas fases cinzas da vida! Vem d’Ele o seu dom maravilhoso , Luciano! 🙏

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