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Pequena estória,
por Leo Forte

Nasci numa cidade arrumadinha, perdida nesse mundão de país, tão pequena, que, de tão pequena, nem história tinha, só alguns assuntos.

A dona da casa vizinha, uma senhora que se chamava Dona Alegria, era uma bondade só. Fazia bolos e doces deliciosos e tinha a neta mais linda que já existiu, de nome Felicidade.

Felicidade tinha os cabelos crespos que Dona Alegria penteava com um pente especial. Ficavam redondos parecendo um capacete, lindos, fofos, sedosos e cheirosos. Era alta, magra, com olhos grandes, negros e brilhantes, dentes fortes, branquíssimos, e boca de lábios grossos sempre sorridentes. Sua pele era escura, lisa como seda, aguentava todo o sol do mundo, no máximo, ficava com as bochechas rosadas.

Desde muito pequenos éramos inseparáveis. Eu a chamava de Feliz. Conhecíamos todos os cantos da pequena cidade, que, para nós, era enorme.

Todos os ninhos de passarinhos nas árvores do mato vizinho recebiam nossa visita. Éramos os protetores dos ovos de quero-quero do gramado em frente à igreja. Enquanto um distraía a mãe quero-quero com seus protetores voos rasantes, o outro colocava pedrinhas em volta do local onde os ovos estavam para não serem pisados por algum distraído.          

No córrego próximo da cidade — a parte melhor das nossas brincadeiras –, jogávamos água um no outro, brincando de guerra.

Só não íamos ao pequeno cemitério, era sagrado, não era lugar pra criança bagunçar. Sempre passávamos longe. Na volta pra casa Feliz com a mão no meu ombro me conduzia e costumava dizer, “você vai ser meu marido quando a gente crescer”.

Nasci muito branquinho, acho que por isso me deram o nome de Branco. Desde muito pequeno tive sardas no rosto e com qualquer sol ficava vermelho e ardido. Talvez por pedido de minha mãe, Feliz sempre me fazia usar chapéu, não me deixava esquecer, dizia: “se proteja Branquinho, se não você fica ardido e vermelho como um tomate”, e ria muito, me deixando encabulado. Todos os dias bem cedo, vinha até minha janela e chamava: “Branco, Branquinho, acorda dorminhoco vamos pra escola”.

Discutíamos o tempo todo: qual era o passarinho que cantava mais bonito? O sabiá ou o pintassilgo? Qual o doce mais gostoso? O de abóbora ou o de coco? Qual a cor preferida? O amarelo ou o vermelho? Quando o céu é mais azul? Aqueles dias eram curtos, o tempo passava depressa.

Feliz também era temperamental. Quando perdia alguma discussão brigava comigo, saía batendo o pé, me chamava de branquelo sardento e jurava que nunca mais ia me dar um doce sequer da avó Alegria. Mas no dia seguinte lá estava na minha janela dizendo: “Branco, Branquinho, acorda dorminhoco trouxe bolo pro seu café da manhã”.

Certa manhã, Feliz não apareceu. Quando levantei, fui correndo pra casa dela e Dona Alegria  me disse que Feliz estava com febre e muita dor de cabeça. Fiquei rodeando a casa dela por três dias. Muita gente adulta entrava e saia, vi até o Doutor Lídio, do Posto de Saúde, ir lá por diversas vezes. Ninguém me dizia nada.

Quando cheguei da escola no quarto dia, notei que a casa não estava mais com as tantas pessoas como nos dias anteriores, entrei correndo pela porta da cozinha chamando “Feliz…Feliz…”

Dona Alegria chegou carregando toda a tristeza do mundo e disse: “Branco, Felicidade nos deixou, virou estrelinha no céu”.

Entendi na hora. Sentei num banco da cozinha e chorei, chorei todas as lágrimas que tinha e que teria. Dona Alegria sentou do meu lado, me abraçou e disse com toda a simplicidade e sabedoria que tinha:

“Chora fio, chora bastante, essa dor não vai passar, ocê vai acostumar com ela, até esquecer, mas ela volta, sempre vai volta na hora que ocê menos espera… é a vida fio.”

Hoje, mais de cinquenta anos depois, às vezes acordo com uma voz dizendo: “Branco, Branquinho acorda dorminhoco”.

Nunca consegui ser marido de ninguém.

5 comments

  1. Belíssima e tocante, história, Leo. Conheço bem o que sentiu o Branquinho, somos parceiros. Também tenho uma Felicidade morando no céu.

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