Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Perros
por Carlos Fernando Castro

Tarde de inverno, céu aberto e vento frio em Santiago. Saímos para algumas visitas pela cidade, a começar por uma caminhada pela Avenida Apoquindo. Logo, um simpático cachorro começou a nos acompanhar. O perro, como o chamam por aqui, apegou-se particularmente ao meu filho e seguiu-nos por todo trajeto, se permitíssemos, entraria no taxi conosco. Para nossa surpresa, quando voltamos, já anoitecendo, lá estava ele: nos recebeu e nos escoltou, atravessando conosco a faixa de pedestres (e caninos). Garboso, à frente do grupo, guiou-nos até a porta do Hotel La Gloria.

Perro, fiquei com essa palavrinha na cabeça. Se a visse escrita num texto em português, minha primeira impressão é de que teria havido algum engano. Alguém escreveu errado, o certo seria berro. “Vou dar um berro para ver se todos me escutam. Ouviuuuuu?” Outra possibilidade de erro de digitação: a palavra é perto e não perro. Afinal, trocar o t pelo r pode acontecer, são duas letras vizinhas no teclado, duas letras irmãs…

Entretanto, existe um pequeno porém. Nesses tempos informáticos em que vivemos, o corretor ortográfico teria dado o alarme. A coitada da palavrinha errada ficaria sublinhada de vermelho. Toda vermelha, escandalosa confissão.  Aí sim, o berro saltaria incontido, denúncia imediata de falha ou ignorância do autor. Se tal não ocorreu, deve haver uma razão.

Há palavras e palavras. Extrair delas significado nem sempre é imediato, muitas vezes carregam dentro de si um lado oculto, história e mistério. Não é difícil encontrar aquelas cheias de sabedoria profunda, as que transpiram sensualidade, esvoaçam atração ou simplesmente nos olham. Outras, entretanto, são frias, carregam uma certa sisudez. Não sei se concordam, mas acho que é o caso de perro.

Vamos ao dicionário: perro (com e fechado), vem do espanhol perro e, como substantivo, tem o significado principal de cão, mas pode também ter teor depreciativo: vil, canalha. É possível usar a palavra ainda como adjetivo, vejam só: emperrado (portão perro), ou mesmo, obstinado, teimoso, pertinaz (sujeito perro!).

Aprofundemos um pouco mais. A pergunta é: qual a raiz latina? Para minha grande surpresa, não se conhece uma raiz. Existe desde sempre como um termo popular para o nosso amigo cachorro. Não se sabe por que, ficou cristalizada apenas no espanhol. No latim erudito havia canis, de onde derivaram tanto o nosso cão em português, como cani em italiano e chien em francês.

Volto à imagem de nosso leal e inesperado companheiro de caminhada. Que pensas tu, perro? Compreendes portunhol? Compreendes o legado da evolução de tua raça? Sentes segurança de estar por perto desses bípedes humanos? Seu olhar responde: sempre acaba aparecendo alguma comida, encontra-se um lugarzinho melhor para dormir, carinhos na cabeça. Maravilha. O que atrapalha são os outros perros. Vigiar o tempo todo é sua sina.

          – Uau, digo, Auu, garantir um território não é fácil não. Tá vendo esse grandão folgado aí? Só rodeando…

O cão sente, percebe e age, em última análise, sempre em busca de melhores condições de sobrevivência. Nesse sentido não somos diferentes. Estamos sujeitos às mesmas leis físicas, à mesma evolução darwiniana. Nossa natureza biológica é similar, temos sistemas circulatórios, respiratórios, digestivos e daí por diante.

No entanto, há uma grande diferença: cachorros não criam palavras. Não inventam canis e perro, cão, cani e chien. Palavras, só os humanos. Elas são de outra natureza.

Não carece agora de avançar por caminhos científicos da pesquisa evolucionária. Essa conclusão me basta, por ora: o mundo das palavras é de outra natureza. Um espaço mental de cada ser humano que nos une ou divide, abre infinitas possibilidades de troca, viagens e navegações.

A palavra perro e o perro propriamente dito, nosso simpático e canino amigo chileno, habitam mundos diferentes. Nós humanos – abençoados – navegamos pelos dois. Não me pergunte por que. Peço licença a Drummond e o pluralizo: Mundos, mundos, vastos mundos…

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4 comments

  1. Um cachorro, um perro, uma companhia surpreendente na cidade estrangeira, mas também aguda reflexão sobre os caminhos da linguagem . Atitude poética e perscrutadora dos grandes cronistas. Vou atrás dos livros.

  2. gostei do espaço mental e pensando naquele compartilhado com o seguidor canino, em qual intersecção se encontraram? A palavra faltante ao perro despertou a linguagem

  3. A reflexão sobre a origem das palavras, o caminho da linguagem, o poder da escrita, a poesia do olhar, que beleza de texto, Carlos.
    E pensar que um mero perro fez tudo isso.

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