Este artigo é parte do Clube dos Escritores Por um triz, Vera Tarantino para o Clube dos Escritores do FiftiesMais

Por um triz, de Vera Tarantino

Por um triz, Vera Tarantino para o Clube dos Escritores do FiftiesMais
Por um triz, Vera Tarantino para o Clube dos Escritores do FiftiesMais

Meu caso com ele se moveu entre frestas. Não era assunto familiar. Convivíamos nos intervalos, nos entreatos, nas sobras, atiçados pela luz escassa e quente que nos invocava.

Em público, nos entreolhávamos, observados de esguelha. Na privacidade éramos nós a espreitar lá fora. Entrincheirados onde quer que estivéssemos.

A transgressão provoca o imaginário, afronta e atrai, hospeda o medo, incita os ânimos. Cegos, os amantes intuem o caminho estreito, se apertam e sem ar se socorrem no desejo, se abastecem de carícias. A paixão é miragem, transporta para além dos sonhos, conduz à fantasia onde o objeto perseguido se faz realidade. É a vida em suspensão, em estado gasoso, aguardando para ser.

Neste universo de devaneios e incertezas, sobrevivemos, quase afogados, quase sem luz, quase sem lugar.

 

Vera Tarantino: “Sou uma pessoa em movimento. A escrita me acalma, me faz parar. Minha relação com a palavra sempre foi da precisão dos dicionários, no entanto foi da imprecisão das minhas memórias que meu texto nasceu.”

 

4 comments

  1. Vera,

    gosto de textos curtos onde tudo fica dito e nada se fala. Você revela os sentimentos de amantes proibidos de sair das quatro paredes sufocantes que espremem a vida em momentos . A porta trancada para um amor desejado mas guardado entre as paredes da paixão.
    Parabéns!

  2. A transgressão garante a sobrevida da paixão?
    Ou ela se esgota em si mesma?
    Sem receitas, navegamos por onde nos levam nossas pulsões, rezando para mais e mais excitação, longe/ perto da morte.

    Incrível seu texto, Vera.
    Parabéns!

  3. Betina e Sylvia,
    Viver é isso, risco e coragem, feito eu aqui me metendo entre escritores (que medo).
    Agradeço a leitura e os valiosos comentários

  4. Um narrador se salva, transpondo as águas entre a paixão e a racionalidade.
    Por um triz, ele acha a ponte de palavras pétreas que divide o texto no riacho profundo. À beira, em terra, olhando a travessia, tudo é sólido e menos fluido. Na alma, no entanto, carrega a beleza de um sentimento escoando entre as letras.
    Dessa água, afinal, bebemos. Em bons textos, qual este, vivemos.

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