Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Princesas, por Liliana Wahba para o Clube dos Escritores

Amava cães e gatos e odiava pessoas, ninguém sabia que as odiava; parecia amável e atenciosa e fazer jus a seu nome: Santinha Alicéia Pedroso dos Santos, família importante da cidade de interior onde havia nascido. Nunca casou e seu único vestígio amoroso fora um rapaz da escola quando tinha 13 anos, amor platônico jamais declarado. Passou como nuvem fugaz, sem lembrança alguma. Sua menopausa foi despercebida, somente menstruava algumas gotas. Aluna regular, era querida somente pelo exemplar comportamento, desde criança, “uma santa”. Fato é que na escola primária sua coleguinha tivera um feroz desarranjo intestinal após insultar Santinha de bocó, no segundo grau uma aluna quebrou a perna ao tropeçar em uma pedra no dia em que excluiu Santinha de seu grupo por achar que tinha um olhar invejoso e outros pequenos incidentes coincidentemente aconteciam em circunstâncias nas quais ela estava por perto de alguma forma. Mas era insuspeitável e com os anos confirmou sua bondade. Defensora ferrenha de cães abandonados e de gatos mal tratados criou um Liga de Ajuda aos Animais e conseguiu bons patrocínios para a mesma. A atividade era assídua e constituía o único grupo no qual participava e convivia. Solteira, virgem e sem filhos, tinha sobrinhos que se escondiam da tia nas raras visitas ou encontros familiares. Ela nem perguntava por eles, simplesmente os ignorava; não existiam em seu universo. Sua atenção e dedicação integral se dirigiam aos animaizinhos necessitados. Certa vez evitou esmagar um cão em uma manobra arriscada, foi chamada de heroica, e o infeliz cidadão atropelado que ficou meses em um hospital teve a má sorte de cruzar a avenida em momento inoportuno. Em outra ocasião resgatou dez gatos – cada um com um nome e personalidade e pelagem sedosa -, que viviam com uma mulher quando esta adoeceu; recuperou-se totalmente em poucos dias numa clínica, mas os gatos tinham sido doados a pessoas caridosas pela dádiva zelosa de Santinha. A mulher fez campanha e denuncias contra ela, no entanto sua honra ficou intocada.

Assim eram seus dias, e adquiriu certa fama nas redes sociais em torno da proteção aos animais. Mantinha uma diarista desde a época de sua juventude; moça alegre, aprendeu a se conter, a trabalhar sem olhar para a patroa e a evitar os bichos que habitavam a casa. Nem desgostava deles, mas já tivera provas do furor de Santinha se sequer mexesse num pratinho de comida ou em brinquedo dos protegidos. O ambiente piorou com a chegada das Princesas, duas Lulu da Pomeranha batizadas Princesa Um e Princesa Dois. Mordiam traiçoeiras o calcanhar da empregada, que reagia com suspiros e olhares de raiva.
Na casa havia poucos objetos de valor: louças portuguesas, um aparador antigo, um lustre de cristal da boemia e uma pulseira de ouro cravejada de diamantes, herança da avó e guardada em estojo de veludo. Uma tarde na reunião da Liga, uma das mulheres vira em um leilão pulseira que parecia corresponder à descrição que Santinha fizera da joia da avó e esta a trouxe para comparar. Após a reunião a pulseira desapareceu. Procura, investiga, as suspeitas recaíram sobre a diarista que, em sua defesa, acusara uma das Princesas de ter engolido a pulseira. Foi parar na prisão por roubo, sem piedade da patroa que comentava que não se podia conhecer nem confiar nas pessoas.

Santinha passeava orgulhosa com suas Princesas e frequentemente deixava de recolher as fezes, pois, não era da natureza? E deu-se que, por ocasião de um dos passeios, o sem teto Baú, após uma noite de pinga, avistou um brilho no montinho marrom perto de sua barraca improvisada, e de lá retirou uma magnífica braçadeira no rastro de Princesa, seja a Um ou a Dois.

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LILIANA LIVIANO WAHBA – Psicanalista junguiana. Profa Dra da PUC-SP. Diretora de Psicologia da Associação Ser em Cena – Teatro de Afásicos. Autora de Camille Claudel: Criação e Loucura.

 

 

One comment

  1. “Odeio” Lulu da Pomeranha. Tenho e gosto de Labradores brancos. Minha Lola tem 13 anos e está bem.
    Foi ela que me “salvou” quando de uma triste crise em todos os sentidos. Apenas ouvia um soluço e eis que Lola vinha com sua pesada pata arranhar-me a mão ou a cocha.
    Na verdade seu dono era o marido da casa e a ele se apegou durante anos, nao largando do seu pé. Sem mais seu criador em casa, ela passou a dormir ao meu lado, uma novidade. Minha gentil e agradecida vingança foi quando um dia o marido da casa adentrou na minha casa e Lola nao mexeu uma pata ou rabo para vir cumprimentá-lo. Foi um dos bons momentos da minha separação!
    A senhora Santa, sem ser dona de um só animal, sem marido dono da casa , nao era uma misericordiosa senhora amante de cães e gatos. Quer me parecer que ela odiava tudo que era vivo.
    Gostei do seu conto ao descrever uma senhora solitária sem destino próprio.
    Conte-nos mais sobre dona Santa Alicéia Pedroso dos Santos.
    abraço

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