Este artigo é parte do Clube dos Escritores log Clube dos Escritores 50+ Luciano de Castro Quaresmeira

A QUARESMEIRA,
de Luciano de Castro

Plantei uma quaresmeira na calçada

Daquelas que produzem flores roxas

Cuidei dela, reguei, adubei, disse-lhe palavras carinhosas

Ela cresceu, ficou bonita, bem copada, de folhas verdosas e pontudas

Ela floresceu, encheu-se de flores sedosas e graúdas

E quando estava assim: bem crescida, bem frondosa e bem florida

Veio o funcionário da prefeitura para cumprir a sentença

A ordem era decepar os galhos, arrancar as folhas, profanar as flores

Eu não vi a cena. Se visse, por certo, não permitiria

Mas consigo imaginar o sofrimento dela quando a motosserra nervosa rugia

Decepando-lhe os galhos, arrancando-lhe as folhas, profanando-lhe as flores

É que precisavam colocar uma placa de trânsito na minha rua

E o lugar tecnicamente calculado foi justo o meio da copa da quaresmeira

Quem mandou ficar tão crescida, a ponto de atrapalhar os carros?

Quem mandou ficar tão insolente, a ponto de açambarcar o passeio?

Vendo-me indignado, meu vizinho, um bloco de concreto, esbravejou:

No pragmatismo da urbe, não cabe ter dó de planta, sentimentalismo banal

Na sociedade moderna, mobilidade é tudo e uma placa de trânsito é fundamental

Muito mais útil pra cidade do que árvore, folha, boniteza e flor

Muito mais necessária pro cidadão do que sombra, oxigênio e passarinho cantor.

*Luciano Alberto de Castro

Goiânia 24/10/2021 (Dia em que Goiânia comemora 88 anos)

Um comentário

  1. Ai, que dor!!!! Mais uma que morreu pra não atrapalhar o trânsito. Não adiantou adubar, regar, cuidar, adular. Acabou no chão como um pedaço morto, partido aos pedaços. Não foi um tufão, foi a motosserra urbana, violenta e cega. Acabaram com as espatódeas da minha rua. Um réquiem para sua linda quaresmeira, Luciano.
    De cortar o coração.

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