Este artigo é parte do Clube dos Escritores refugiados - leo forte - fifties mais - clube dos escritores maiores que 50

Refugiados

 

Depois dos terríveis incidentes terroristas em Paris, não só a Europa como todo o resto do mundo, está em pânico. Basta lembrar que o estouro de um vidro de vela que homenageava os mortos na Place de La République, provocou um tremendo corre corre, que por pouco não causou mais uma tragédia.

E os refugiados continuam chegando ao continente. Abatidos, assustados, desamparados, procurando desesperadamente um lugar para sobreviver. Não podemos esquecer – principalmente depois da barbárie de Paris – que é exatamente disso que eles estão fugindo. Milhares, explorados em todo o caminho, carregando unicamente o que puderam: suas crianças, mulheres e velhos.

O frio na região já chegou, o inverno rigoroso está na porta e as cercas estão sendo erguidas, deixando apenas a visão do que poderia ser o caminho para um campo seguro. Existe uma consciência no mundo? O que podemos fazer? Só vamos acompanhar estarrecidos os acontecimentos?

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Confesso que criei um trauma. Não posso ver uma pessoa com uma câmera na mão que automaticamente lembro-me da cinegrafista Petra Laszlo, da TV húngara. Perto da fronteira quando centenas de migrantes corriam fugindo de um cordão da polícia húngara na fronteira com a Sérvia, ela chuta uma menina que tinha conseguido passar correndo. Na sequência, também dá uma rasteira e derruba um senhor que carrega uma criança.

O que Petra Laszlo queria? Provavelmente uma cena do migrante e seu filho com expressões desesperadas, humilhados, mostrando dor, medo, enfim coisa de impacto, para que ela pudesse acontecer com a publicação.

Pois bem Petra, você conseguiu, estava rodeada por alguns de seus colegas de profissão que filmaram sua atuação. Suas imagens rodaram o mundo e causaram indignação. Algumas opiniões na rede em húngaro, inglês, árabe e português entre outros idiomas, consideraram o caso uma vergonha e afirmam: “esta jornalista representa o pior da humanidade”.

Petra, seja qual for sua ideologia politica, esta barbaridade não era necessária, se você queria uma imagem de impacto, bastava capturar um olhar, esta tudo lá: “os olhos são o espelho da alma”.

Em 1937, aviões alemães bombardeiam e arrasam a cidade basca de Guernica. Picasso havia sido contratado em janeiro para pintar um mural para o Palácio do Governo espanhol na Feira Mundial de Paris. O artista soube dos fatos desumanos e brutais através de jornais. Revoltado, poucas semanas depois, começa a pintar o enorme mural “Guernica”. Foram dois meses de trabalho. Ele expressou nesta obra a violência e a crueldade do bombardeio usando imagens como o touro, o cavalo, o guerreiro caído, a mãe com seu filho morto e uma mulher presa em seu prédio em chamas.

Certamente era com esse olhar que Picasso via “Guernica”.

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Conta-se que, em 1940, na Paris ocupada pelos nazistas, um arrogante oficial alemão, diante de uma fotografia reproduzindo o painel, disse a Picasso: Você que fez esta coisa horrorosa? O pintor, então, teria respondido: “Não, foram vocês!”.

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Leonardo Forte (Léo), 73 anos, economista, publicitário aposentado, casado dois filhos e uma neta. Apaixonado por cinema, literatura e música, escreve contos e promove encontros para ensino de jazz.

2 comments

  1. Léo, ótima lembrança dos olhos de Picasso. Deveríamos ter olhos em todos os lados e todos os tempos. Assim veríamos o que está na frente, por detrás, no alto e subterrâneo. O que fizemos no passado, o que nos acontece no presente e o que provocamos no futuro. Se há um ensinamento na arte do cubismo, é isso. Nossos olhos são o que são e precisam que torçamos o pescoço para ver mais. Infelizmente, nem todos estão dispostos a fazê-lo. Obrigado pelo texto.

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