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Registro,
por Lourdes Gutierres

E passado tanto tempo desde então me parece que é hora de se dar outro rumo para as coisas que por aqui andam a atormentar os que habitam nessa área da terra de desconsolo e de tantas premências sempre ditas e ditas mas nunca atendidas gerando carências de toda ordem e que seguem como se tudo não passasse de coisa de ontem e no entanto são tão presentes juntamente com essa  fonte de ódio que se alastra descampado adentro golpeando tudo e todos que passam no mato e no asfalto que tira o esboço do sorrir que vinha de outra fonte agora ceifada no quintal de flores murchas onde a água que jorrava secou secando bica riacho ribeirão e também o rio de tantas curvas que corria pela seara e que foi deixando um rastro de sede que nunca cessa dessa justiça tão almejada nesse tempo em que já não basta lançar lamentos surdos quando é hora de urrar e de lavrar escrituras onde se despeje em jato reprimido o tanto de indignação e que tudo se faça claro para desmontar a morbidez estrutural enquanto ainda haja lua a compor paisagem de solicitude e afeto enquanto o olhar seja meio de ampliar repertórios e de fazer reparos pois ainda ontem aconteceu outro desmoronamento que lançou destroços em nossos recantos ocultando a passagem do justo então de novo é preciso a precisão das coisas mais sagradas o palmo de terra o pão da ceia o peixe repartido o deleite do corpo suprido de todo sol e sal precisamente agora nesse momento de tanta urgência e que não se faça esquecido então eu ponho tudo no papel para registro e providências antes do próximo dilúvio.  

8 comments

  1. Forte, monumental. Parabéns Lourdes, grande texto para os brasileiros lerem e refletirem. Para que crie união e reação contra as insanidades que são despejadas contra nós.

  2. Esse grito de guerra que faz tremer as nossas frágeis crenças, esse alarme de perigo que convida a reagir, esse desvelar de ilusões que já foram esperança, também nos avisa que ainda há saída, desde que avaliemos resultados e não promessas ou discurso de ódio . É preciso acordar para o real que nos cerca!
    É o convite que nos faz a autora, numa narrativa poética e impactante, que prescinde à pontuação, mas que pontua tudo que é necessário! Parabéns, Lourdes!

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