Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos Escritores 50+ A picada chinesa

Safei-me de uma picada chinesa!
por Eder Quintão

Estava chegando em Ubatuba. Férias mais do que merecidas em início de 2021, após 2020 inteiro extenuado e exasperado respondendo a uma multidão de indagações sobre Covid-19. Cada telefonema, cada e-mail, e WhatsApp demandando que eu mergulhasse a contragosto na literatura médica a analisar todos os detalhes sobre o vírus – quando não é minha especialidade – embora entenda dele mais do que o general-ministro (o que pode indicar saber muito pouco ou ser totalmente ignorante). Podemos imaginar a fragilidade militar de nosso país se o padrão da classe for o de entender de armas tanto quanto o tal ministro de saúde.

Só soube que existem esses vírus quando estudava medicina, mas virei psiquiatra. E os pedidos de conselhos? Tomo medicação preventiva? Não? Mas, doutor, tanta gente está tomando e com receita médica! Só o senhor está certo? Tomo ou não tomo essa vacina? É chinesa? Deve ser falsa! É russa? Um horror! Que coincidência: uma comunista, a outra ex-comunista! Até 2021 ambos nunca haviam produzido um remedinho sequer, nem para dor de cabeça, verminose, diarreia, nem p’ra chulé… Agora picam todos p’ra salvar o mundo! Impossível confiar… E as perguntas sobre hidroxicloroquina, e aquele remedinho inofensivo que mata carrapato? Ora, se carrapato é grande e morre, vírus, tão pequenininho, claro, só pode morrer mais depressa. Fake news? Como, fake news? Pois é nosso ministro da saúde quem o diz e, saiba você, general nunca mente. Se mente, em quem vamos confiar? Em civil? Nesses políticos safados? Acreditemos naqueles que nos salvaram com a revolução redentora, nossos heróis de 1964, injustiçados construtores de Itaipú.    

Chamam-me do hospital. Volte rápido: “sua picada da chinesa será hoje às 15 horas. Não haverá vacina nem para todos os médicos e enfermeiras”. Os índios?  Ora, que se danem. Escondam-se no mato. Entre picada e flechada, tomem flechada! E os quilombolas? Ora, jamais deram bola para eles, mas, sejamos éticos: que se vacinem os idosos deles, aqueles acima dos oitenta. Mas não existem? Só há os abaixo de sessenta? Quer dizer: morrem cedo? De outras causas?  Então, guardemos as vacinas para aquela gente velha das grandes cidades, os mais suscetíveis e que ainda poderemos salvar, principalmente nossos pais, tios e avós, aqueles velhinhos doces, simpáticos e carentes, que não foram a cinema o ano todo e tanto sofrem proibidos de ver os netinhos, esses infantes maldosos que tem Corona escondidinho lá, bem atrás da garganta, e sem febre não perdem o paladar e guardam-no pronto para despachá-lo no próximo espirro – suas flechadas –  verdadeiros genocidas que se prestam a extinguir seus idosos sem qualquer sentimento de culpa, na mais santa ignorância do crime perpetrado, e poupados de féretro e enterro, são dispensados do luto.

Pegou Covid? Mas como? Pois nem chegava à janela, e permanecia na portaria enquanto a doméstica limpava a casa, fazia a comida do almoço e do jantar; saía e voltava pr’a casa de taxi…  Ah! Que maldade: deve ter pego daquele neto endiabrado que vivia na casa da namorada – aquela que andou tendo uma febrezinha passageira, tosse seca e sem sentir o gosto do sorvete, mas ficou boa logo – uma virose qualquer pega nos botecos de cervejadas proibidas, sem máscara…Delinquente!… Sem máscara!… E a namoradinha pegou de quem? Ora, do outro namorado que ela encontrava às escondidas à noite na esquina escura – sem carro, o pobretão – e o chifrudo do neto que tinha carro de luxo não sabia.

Precisava vacinar 200 milhões, mas o Ministério, por economia – país quebrado, sempre quebrado desde Cabral (o descobridor e o do Rio) – só encomendou picar 100 milhões. Hum?!…  Vamos dar um jeitinho, aquele que só nós dos “brasilis” praticamos com eficiência ímpar. P’ra mim morando no Morumbi, lá p’ro lado do Einstein, foi fácil. Nem fui ao Einstein. Passei ali em Paraisópolis, numa esquina acertada com gente de toda confiança… Receptaram mil doses dum “faixa” que tramitava droga pesada em Guarulhos… Saiu do avião, nem entrou na grua, ou passou pela esteira, e sem inspeção foi direto de taxi p’ra comunidade. Disseram que lá no laboratório do exterior foi exportada a um dólar a dose. Mas, aqui na comunidade saiu só por 200 dólares…. (em notas de dólares pr’a não ter dúvida). Caro? Coisa nenhuma! Precisava ver aqueles bacanas, de apartamento com piscina, aqui em volta da gente, em fila bem-comportada dando volta na favela. Tinha até Mercedes… Sabe quanto custa no Einstein um dia de UTI com Covid e intubação? Mil dólares (fora a conta dos médicos), e pode não dar certo e até sair frio de pernas esticadas, mais o custo do velório. Ah… da entrada da favela uns garotinhos descalços já vão avisando: Trouxe seringa patrão? Não?  Não se afobe: ali na esquina tem um parceiro meu, dos “bacana”, vendendo seringa com agulha…. Só 50 paus… Mas, custa cinco na farmácia!… Eu sei, mas acabou o estoque em toda capital. Só se acha aqui, no paralelo, feito entrada de futebol: com cambista… E o companheiro vai desistir? Claro que não…

Saiu caro e foi dos dólares guardados no cofrinho pr’a ir à Disney usados agora com esposa, filhos, empregada, faxineira, e até a sogra… mais a dose de presente pr’o zelador. Por quê? Porque foi ele que deu a “dica”, com endereço e tudo… “dica” segura vindo do porteiro da guarita de nosso prédio…Que mora… Em Paraisópolis… Trouxe pr’a faxineira e doméstica? Virou socialista agora? Sempre foi eleitor da direita! Pergunta idiota: vai deixar serviçais de fora p’ra te matarem depois de Covid? É de direita, nunca participaria das “diretas já”; PT? Nunca mais! E às vezes é bom praticar boas ações, dar o exemplo de civilidade, e um agrado pr’o zelador que sempre foi tão gentil!    

Mas apenas pr’a lembrar: quem compra produto furtado é ladrão também. Compraria um Rolex lá na favela? Nem precisa responder… Claro que não. Também não precisa tentar me convencer que vacina é consumível e relógio é uso permanente. Roubo é roubo de um e também de outro: líquido ou sólido, pior que tomar whisky contrabandeado. Devias chamar a polícia e não tomar vacina. Ah!…. Não adianta porque polícia é corrupta, roubaria as vacinas e venderia pr’os outros polícias?…  Entendi! É o preço que se paga pr’a não ficar desde madrugada na fila dos sujinhos no INSS à espera da picada.  Ah!… Também entendi que nas cidades vivem os caciques, os índios e os quilombolas. Todos são iguais, mas há os que são mais iguais que os outros: esses são os honestos; os outros, os desonestos. 

Como é possível V. saber toda esta história? V. era apenas um garoto em 2021 e estamos agora em 2064! Foi seu pai psiquiatra que contou?  Hoje se faz vacinas rapidamente, não é como naquele tempo que precisavam de muitos meses. Hoje tem vacina pr’a tudo, até pr’a câncer, e ninguém mais morre desta doença antiga e horrível. Alzheimer? Já era… Descobriram um remédio que antigamente usavam para matar vermes: acabou com o Alzheimer! Só tem velhinho supimpa fazendo jogging e às gargalhadas sabendo daquela turma antiga que não tinha mais ereção depois dos 80. Hoje, quem passou dos 120 e não tem vida sexual todas as noites, é brocha, motivo de chacota… Pois então, brindemos por termos chegado a 2064.

Felicidades na sua pós-graduação na universidade de Nanjing…  Fez mais ganhadores de prêmios Nobel nos últimos 40 anos do que os Estados Unidos e o ocidente inteiros! Mas isto é outra conversa… Há 100 anos uns estroinas derrubaram nosso presidente eleito para salvar a pátria do comunismo e este morreu de morte natural no Vietnam, em Cuba, na China, na Coreia do Norte. Claro que faz um tempão que não ganhamos Copa do Mundo, mas ninguém se importa; mandarim é nossa segunda língua, somos imbatíveis em ping-pong, comemos tudo à base de soja, importada da China, e carne de vaca da India. Só usamos açúcar de Cuba, verdadeira usina produtiva, e arroz daquela potência econômica, o Vietnam, e fazemos exercícios navais com a poderosa marinha da Coreia do Norte, depois que a esquadra do bisneto do Kim Il-sung… Bom, mas isto é uma outra história p’ra gente bater papo um dia. Imbatíveis esses chinos… Quem diria!… E lembrar que tudo começou com a picada chinesa!

4 comments

  1. Que tempos vivemos! Até quando? Gosto de seus textos sutis. Tinha proximidade com os vírus quando estudava medicina, mas agora é psiquiatra, e ficam atrás de você,…É duro ser médico!

  2. Uma pérola de ironia e humor. Muito bem escrito. Um intervalo inteligente para esse tempos tão irracionais e maldosos. Grato, Éder.

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