Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos Escritores Leo Forte Sombra

Sombra,
por Leo Forte

Aperte o play antes de começar a ler para acompanhar sua leitura com a música The Shadow of Your Smile tocada pelo New York Trio

Todos no café consultavam seus celulares.

Hábito odioso, pensou, enquanto lutava com as páginas do jornal, procurando o texto de sua colunista preferida. Acertou o jornal e disfarçadamente olhou para a senhora elegante que entrava e se instalava em uma mesa.

Já não sabia se vinha todos os dias após a caminhada da tarde para se refrescar no ar condicionado da cafeteria e saborear o cappuccino ou se para olhar aquela mulher de sorriso triste, lindo, que também vinha diariamente naquele horário.

Levantou. decidido, e caminhou até a mesa da mulher que já olhava pra ele com curiosidade. Parou em frente à mesa e disse:

– Olá.

– Olá, ela respondeu.

– Posso sentar? falou, apontando a cadeira em frente.

– Com tanta cadeira e mesa vazia, por que você quer sentar aqui?

– Quero falar com você.

– Falar o que comigo? Já vou avisando, se você for algum vendedor ou coisa parecida, não estou a fim de comprar nada.

– Você está tirando sarro de minha cara?

– Estou…é algum tipo de paquera?

– Você acha que na minha idade eu estou para isso? disse apontando para si mesmo.

– Por que não? Você não parece tão velho assim.

– Oba, isso é um incentivo?

– Bobagem, pode sentar, disse, indicando a cadeira com os olhos.

– Se não é paquera e não quer me vender nada, o que você quer?

– Quero te conhecer.

– Humm… isso é um começo de paquera.

– Não, não é. Eu te vejo diariamente neste horário aqui e…parou pensou e continuou: – é a única pessoa que não fica cutucando o celular. Fiquei curioso.

– Por eu não ficar mexendo no celular?

– Não, por você vir todos os dias neste horário.

– Eu saio da academia e descanso com um café. Espera ai, você fica me observando, por acaso é o dono da cafeteria?

– Vamos lá. Não sou dono do café, também venho todo dia neste horário tomar um cappuccino depois da minha caminhada, e, em verdade fico te observando.

– Confesso que já tinha percebido você me olhando por traz do jornal que finge ler, mas por quê?

– É a sombra em teu sorriso.

– Ela riu e disse, esta eu conheço, cantarolou, “the shadow of your smile”. É paquera mesmo, completou.

– Não é não. É só curiosidade, repito, quero te conhecer, descobrir porque este seu sorriso envolve e fica grudado na gente, sem falar na aura misteriosa que te acompanha.

– Uauu, que bonito! Você quer me conhecer, então vamos lá. Primeiro me diga seu nome, idade, profissão, escolaridade e nível cultural.

-Você esqueceu CPF, RG, posição financeira, estado civil e por falar em estado civil, você é casada?

Uma sombra baixou em todo seu rosto, os olhos perderam o brilho, ela levou a mão aos olhos e esfregou-os como se estivesse enxugando, abaixou a cabeça demonstrando tanta tristeza que o deixou constrangido. Arrependido de ter perguntado, sem jeito ele disse:

– Desculpe, não queria te chatear.

– Não sei, não sei, não sei, ela disse, nervosa.

– Não sabe o que?

– Se ainda sou casada ou viúva.

– Como? O que houve? Ele perguntou, meio sem jeito.

– Certo, vou te contar e aproveitar para desabafar um pouco:

Meu marido, em uma pesca noturna com os companheiros do trabalho, caiu no mar e nunca foi encontrado. Isto há mais de dois anos.

– Que horror! Sinto muito. Vejo que você ainda sofre muito com isso. Desde então está sozinha, tem filhos?

– Não tivemos filhos, casamos tarde e resolvemos não tê-los. Há alguns meses pela lei meu marido foi considerado morto. Então tecnicamente sou viúva, mas não me sinto assim.

-Você esta com alguém? Namorado? Companheiro?

– Você é muito curioso. Mal te conheço, nem sei teu nome e você vem cheio de perguntas intimas?

– Tem razão, desculpe, meu nome é Alfarro, Éttore Alfarro, Éttore com dois t e o seu?

– Nome diferente Éttore. O meu é Maria Hercília Guimarães de Albuquerque. Bem, vou terminar meu café e vou embora.

– Posso te acompanhar?

Nunca ninguém bebeu nada tão lentamente enquanto pensava.

– Não sou boa companhia disse, com um gesto redondo como se tivesse capturando algo no ar. Há pouco tempo encontrei um dos companheiros de trabalho do meu marido e começamos certo relacionamento. Depois de dois meses ele foi assassinado por um motoboy em um assalto. Quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Sou um tremendo para-raios, não vale a pena arriscar.

Tchau, nos veremos por ai.

Éttore ficou atônito vendo Maria Hercília sair, seguida por uma sombra de tristeza.

Enquanto isso no café todos continuavam consultando seus celulares.

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