Perdi o tesão pela minha mulher - sylvia loeb - fifties mais

Perdi o tesão pela minha mulher

 

Finalmente pensei que tinha encontrado a mulher de meus sonhos. Tenho quarenta e três anos, vivi intensamente amores que não duravam muito tempo, no máximo dois anos, pois eu acabava perdendo o interesse. Pensei que com Solange seria diferente, ela é linda, loura, charmosa, corpão, atenciosa, boa mãe, gentil, pedir mais é impossível. O problema é que não tenho o menor tesão por ela. No início do nosso casamento ainda funcionava, mas depois de apenas dois anos, o interesse murchou. Eu me esforço, ela faz tudo para me seduzir, mas não adianta. Tenho interesse por outras mulheres, menos atraentes do que a minha, o que está acontecendo?
Luiz Antônio

homem pensativo, preto e branco, grisalho

Luiz Antônio,
Depois de dois anos, o prazo de validade esgota e você quer trocar de parceira. Vivemos em uma sociedade de consumo, produtos maravilhosos não faltam, para todos os gostos, para todos os bolsos. Parece que as mulheres entraram nessa categoria, e você, enfastiado, procura as menos atraentes para acender a chama apagada.
Eu lhe pergunto: o que você deseja?
Arrisco uma resposta: tesão! Sim, essa é a resposta universal.
Todos nós, todos mesmo, homens e mulheres, jovens e menos jovens, os velhos também, desejamos sentir tesão: pelo homem com quem vivemos, pela mulher que nos acompanha, por nossos amantes, pelo trabalho que desempenhamos, afinal passar ao menos oito horas por dia dedicados a ganhar a vida, haja tesão! Tesão pelos amigos, sim, pelos amigos também, pois se não houver tesão por eles, surge um desinteresse atroz em encontrá-los, já experimentou isso? Tesão pelos filhos, pelo que pensam, como se desenvolvem, vê-los crescer, acompanhar suas vidas, tudo isso gera tesão.
O que fazemos quando ele acaba? Quando o tédio chega insidioso, quando a comida perde o gosto, quando não achamos mais graça no que está em volta?
Ter tesão é fácil, manter é que são elas.
Como recuperá-lo?
Pois essa tarefa é nossa, pessoal e intransferível, nossa impressão digital. Não da mulher que se esforça para seduzir seu homem, nem do homem que procura adivinhar todas as vontades de sua mulher para tentar garantir o interesse dela.

Podemos ir atrás dele, inventando novidades no trabalho, inventando novidades na vida, pois a vida, tal como é, pode ser muito chata. Um grande poeta, Ferreira Gullar, já disse: “Faço poesia porque a vida não basta”. Isso mesmo, o tesão também tem que ser construído, procurado, pesquisado, criado, inventado.

Ou podemos tentar encurtar o caminho, como você faz: a cada dois anos, reciclagem completa, troca-se de mulher. É um modo mais rápido e menos econômico, pois o gasto de energia, a repetição, as cantadas, as promessas, a decepção, o enjoo…No seu caso, os filhos, ah! os filhos, pobres, que não deram conta de manter o interesse do pai…

Em outras palavras, o tesão é uma força vital que está dentro de nós, é o que nos move, é o que faz a vida andar.
Tesão é sexo, mas não só isso. Se quiser usar outra palavra, interesse é um bom sinônimo.
Interesse pela vida, por aqueles que nos rodeiam, pelo mundo absurdo no qual vivemos.
Facilita se tivermos um parceiro que também tenha essa força dentro de si, pois desse modo as forças se somam, se entrelaçam, para o que der e vier. E o que vem pode ser uma separação, pois as vezes as mesmas forças que no início estavam em convergência, passam a andar em caminhos divergentes.
Assim é a vida, sem garantias.

Como diz Guimarães Rosa:
O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.

Boa sorte,
Sylvia

Sylvia Loeb, psicanalista, escritoraSylvia Loeb é psicanalista e escritora. Visite seu site em sylvialoeb.wordpress.com , acesse sua página no Facebook: @SylviaLoeb ou escreva para o email [email protected]

4 comments

  1. Bem, a matéria foi boa Sylvia, mas tem algo que é tabu nestes assuntos. O fato é que a MONOGAMIA É ANTI-NATURAL e imposta social e culturalmente.
    Você iria com entusiasmo ao cinema ver sempre o mesmo filme, ou iria à sorveteria por toda vida e provaria um único sabor? Claro que não; então porque teria que sentir o mesmo tesão por uma única pessoa a vida inteira?.
    Tenho 15 anos de casado e sei exatamente como é isto, tenho que imaginar com a colega de trabalho, com a filha da vizinha, etc.

    1. Marcos, concordo com você.
      A repetição do mesmo é mortífera. Acho que você resolveu muito bem a questão do seu tesão: a filha da vizinha, a colega de trabalho.
      Nós mulheres também temos nossas fantasias que nos ajudam a lidar com a repetição.
      E la nave va… todos mais ou menos satisfeitos.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *