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O preço da liberdade sexual

Amor e liberdade sexual: combinam? 

Querida Sylvia,

Pensei muito antes de lhe enviar essa mensagem. Não sabia se iria se sentir ofendida, se poderia dar conta desta situação, tão inusitada, no seu blog. Após as leituras dos seus posts, resolvi arriscar. Sou homossexual e vivo com meu companheiro há quatro anos. Eu o amo muito e meu desejo é o de formarmos um casal estável e no futuro adotarmos uma criança. Acontece que ele sempre me traiu, desde o início de nossa relação, e sua justificativa é a de está exercendo sua sexualidade em liberdade. É jovem, cheio de vida e não quer se restringir a uma vida regrada por leis nas quais não acredita, é o que me diz. Tenho medo que pegue uma doença, pois além de tudo não se protege, é muito promíscuo. Me chama de burguês, conservador, careta, sofro muito.

Ronaldo

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sylQuerido Ronaldo,

A questão que você relata é a de homens e mulheres, casais hetero ou homo, trans ou queers, ou o nome que quisermos dar para as várias modalidades em que nós, humanos, vivemos nossa sexualidade.

Traição e ciúme, o nome do jogo.

Em outras palavras, um jogo que humanos e deuses sempre jogaram. Zeus traía Hera com frequência, Afrodite, apesar de casada com Hefesto, teve vários amantes, deuses e mortais.

Para existir um traidor, há que existir um traído. Ou seja, é um jogo que precisa de duplas, não se joga sozinho.

O que você relata é que seu companheiro sempre o traiu, desde o início. Que seu projeto de vida não combinava, novamente desde o início, com o dele, pois um quer constituir família estável, o outro deseja viver sua sexualidade em liberdade.

Uma pergunta: o que o fez entrar nesta relação?

Eu sei, você sabe, nós sabemos, todos sabemos que no início de um relacionamento ainda é possível pensarmos, ainda é possível dizer, “isto não serve para mim”. Na medida em que nos enredamos fica mais difícil, cada vez mais difícil.

Arrisco uma resposta: será que ficou fascinado com ele? Com sua liberdade de exercer a sexualidade? Que continua fascinado, pois ele vive de um modo que você não ousaria?

Se houver alguma verdade nessa suposição, então coragem, viva o que deseja sem precisar usufruir o prazer através do seu companheiro, sem se vitimizar, sem ficar no papel de traído. Seriam companheiros na mesma aventura.

Se, no entanto, você nutre a crença em que pode mudar seu companheiro, que a força de seu amor fará com que ele se modifique, que descubra o grande valor de ser amado por você, seria importante saber que crenças são enganosas, pois não podemos mudar quem não deseja mudanças. Nem a força de nosso amor é tão grande que opere um milagre, a não ser em filmes antigos de Holywood.

Você tem um companheiro que o trai o tempo todo; seu projeto de vida é ter um relacionamento estável e adotar uma criança.

Viva! Você sabe o que deseja.

Viva! Ele sabe o que deseja.

Parece que o problema é erro de pessoa.

Vai sofrer com uma separação?

Sim, vai.

Aliás, já está sofrendo por um projeto falido, no qual, apenas você, apostou.

Coragem.

 

Sylvia Loeb é psicanalista e escritora. Visite seu site em sylvialoeb.wordpress.com ou acesse sua página no Facebook: @SylviaLoeb

 

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