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Tebas
por Lourdes Gutierres

A foto da antiga Catedral salta do livro, em estilo colonial, se espraia na Praça da Sé. Foi demolida. Deu lugar a outra construção, neogótica, majestosa. Próximo dali, na Rua Direita, outra imagem, do Chafariz da Misericórdia. Foi removido. Acabou indo parar em um depósito de inutilidades. Neste campo de escombros e ocultamento estabeleço meu caminhar pela área central da cidade. Sigo rastros deixados por escavadores de memória, perspicazes, que não se deixam abater por abismos e obstáculos; em qualquer espaço obscuro buscam pistas: papel tingido, foto desbotada, fragmentos escritos. Do que encontram em baú perdido no tempo, traçam elos e conexões. O brilho que emerge dessa escavação me permite vislumbrar o relato que segue:   

…e, há tempo eu observava a igreja sem torre coisa difícil de acreditar mas o padre explicou  que não tinha quem soubesse fazer tal arranjo e ele custou a crer em mim indo fazer averiguações por fim tudo se acertou é que eu era novo por aqui vim trazido pelo meu senhor de nome Bento que era mestre-pedreiro habilidoso que com ele apendi tudo de construção me chamava de Tebas e assim fiquei conhecido sei lidar com terra socada e levanto morada de taipa bem rápido dou jeito em tudo quanto é coisa de obra mas o que gosto é  de aparelhar e de talhar blocos de rocha bruta fazendo utilidades e ornamentos – pináculos coruchéus e arremates de portadas pois tão logo chegamos de Santos comecei a dar duro sem folga por aqui tudo carecia reparo e as pedras eram novidade mas de muito uso lá na nossa terra e não é que o menino tem jeito para moldar barro e ajeitar pedra isso meu senhor percebeu desde cedo e tratou de se aproveitar então me ensinou tudo que sabia e ganhou muito dinheiro com meu suor mas eu também tinha meu ganho fui escravo dele até sua morte quando estava no reparo da Catedral continuei a obra aprontei a torre que ficou lá com relógio e tudo de acordo mas com tanta gente morando por aqui e a dificuldade com água tinha de se dar jeito nisso foi quando me chamaram para construir o primeiro chafariz público da cidade com a água trazida do ribeirão Anhangabaú quando se fez pronto dava gosto de se ver o tanto de gente que se juntava por lá para pegar água contar novidades às vezes coisa triste morte e velório  também se sabia de castigos que os escravos sofriam muita judiação e tristeza e tinha a quituteira Zeferina eu ia lá só para derreter a saudades das coisas de nossa gente tudo que ela trazia era gostoso de se provar desculpe sou de poucas falas e ando um tanto esquecido mas nessa parte da cidade não teve o que não fiz de consertos e obras por aqui o dinheiro não era farto mas trabalho sempre aparecia nas ordens religiosas beneditinos franciscanos  carmelitas assim fiz as fachadas da Igreja da Ordem 3ª do Carmo e da Igreja das Chagas do Seráfico Pai São Francisco e para o antigo Mosteiro de São Bento talhei a pedra fundamental da fachada e fiz trabalhos de cantaria lavrada e quando veio nova construção fui chamado para executar a entrada da portaria então deixei lá um ornato do frontão que deu trabalho mas restou tudo combinado com o moderno e aconteceu de me levarem para lonjuras viagem difícil mas não tinha quem fizesse a obra então finquei lá na cidade de Itu o Cruzeiro de Pedra de nove metros de altura que até de longe é bonito de se ver porque assim gosto de deixar as coisas que essas mãos tocam. 

Enfim, o escravo construtor da cidade do século XVIII, Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas, foi reconhecido oficialmente como arquiteto pelo Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo, em 2018, numa data simbólica, 21 de março, em que se comemora o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. No templo da verdade histórica edificou-se novo patamar, dele ecoa a voz que sai do isolamento:

        -Desculpe, sou de poucas falas.

9 comments

  1. Que texto, Lourdes!
    Misto de jornalismo investigativo e narrativa literária, seu relato tem a consistência de um documento.
    Ouvi o carimbo do ” assim seja lavrado”, ao final da leitura.
    O relato do Tebas, de poucas falas e fantasia que lhe anima as mãos é comovente.
    Obrigada, Lourdes.
    Mais uma vez, bem vinda ao nosso clube.

  2. Crônica emocionante, criativa, sem perder a verdade histórica. A homenagem a Tebas é o resgate desses personagens que construíram a cidade e, injustamente, não aparecem oficialmente. Lourdes, obrigado por nos despertar dessas ignorâncias que nem mesmo nos damos conta. Grande texto.

  3. Lourdes, quantas histórias que eu não imaginava. Obrigada por Tebas. Que incrível narrador contando com verdade e humildade a história dele, e da construção de São Paulo.

  4. Que belo texto. Nos transporta a uma conversa com Tebas, uma conversa com nossas raízes, o trauma e o peso da escravidão. Mas ao mesmo tempo traz a visão do artista e a notícia de seu reconhecimento. Ler isso no dia da Consciência Negra, tudo a ver.

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