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Tempo de crise,
por Lourdes Gutierres

Na fila do restaurante, Alzira me liga avisando que vai atrasar um pouco. Somos amigas de infância,  mas depois que ela foi trabalhar em outra cidade, perdemos o contato. Por acaso, nos encontramos na semana passada no Metrô e marcamos um encontro para hoje. Após algum tempo de espera, chamam meu número, entro no pequeno salão rosado. Na parede do lado direito estão quadros de paisagens e flores. Numa bancada do outro lado, ficam as comidas: gohan, sushi, sashimi, tempura, gyoza, yakisoba, também legumes e verduras. Um prato atrai minha atenção,  maniçoba. Pergunto sobre ele para a garçonete;  é uma comida típica do Pará, onde a família japonesa, dona do restaurante, morava antes de vir para São Paulo.

     – É feito com a maniva, folha de mandioca moída. Cozinha por uma semana – explica a cozinheira.

     – Uma semana?!!! Fogo baixo?

     – Não, fogo alto, dia e noite, não desliga. Depois põe carne, linguiça, paio. Feijoada verde, né?

     – Bom quando família trabalha junto – diz a senhora que pesa os pratos.

Alzira chega sorridente,  tira o celular da bolsa, quer uma foto, “para o face” – justifica.  Parece mesmo que se arrumou para o retrato: maquiada, cabelos presos num coque, brincos grandes, colar verde, combinando com a estampa da saia. Justifica também seu atraso, teve de ir ao cabeleireiro por causa de uma reunião importante à tarde. Pergunta o que faço atualmente, mas o telefone dela toca:

     – Sim, claro, vamos combinar uma parceria.  Não vendi nada este ano. Minha última venda foi em junho do ano passado, um apartamento de um quarto. Sabe como são as coisas, os clientes ligam, parecem interessados, depois somem.  É isso, vamos…

Então Alzira é corretora de imóveis, interessante.

No alto da parede em frente à nossa mesa, está passando um filme na televisão: patinhos nadam no lago azul, rodeiam a ilhota e seguem animados ao som de uma alegre música infantil.  

Quando termina a ligação, ela coloca a mão na testa e com os olhos fechados exclama:

      – Pode acreditar, a situação está difícil!

      – É a crise, não está fácil para ninguém.

      – Nossa, o missoshiro esfriou – reconhece.

 Mal começa a tomar a sopa, nova chamada: 

      – Perfeitamente, temos diversos planos. Pode escolher o que se enquadra melhor em seu perfil, com rede hospitalar de qualidade, claro.

 Também vende planos de saúde, que coisa!

 O senhor sentado na mesa da frente engasga,  a garçonete chega rápido,  bate nas costas dele. A mulher que parece ser sua esposa está nervosa,  serve-lhe chá.

 Na TV, a libélula bate as asas, atrás dela, o sol avermelha-se e escurece, a lua reflete no lago.

No momento  de experimentar a maniçoba, Alzira pergunta se tenho plano de saúde. Não tive tempo de responder, ela pede desculpas, pois tinha de atender a amiga Marli:

     – Quer outro xampu igual ao da semana passada? Agora chegou o de jenipapo, uma maravilha! Levo sim, amanhã, está bom?

Como assim, também vende produtos de beleza?!!!

O rapaz da mesa ao lado deixa cair o hashi. Quando se abaixa, derruba molho na saia da Alzira. A garçonete chega com um pano, limpa tudo.

     – Cada uma que acontece – ela reclama em voz baixa – tinha que ser bem hoje que…

Não completa a frase, outra chamada:

     – Já está aí? A reunião não era às 16h? Não é possível, tem algum engano. Não, não o deixe ir embora, diz que estou chegando, chego logo – já, já! 

Vira-se para mim, aflita:

     –  Querida, tenho que ir, desculpe. Envio uma mensagem. Foi tão bom falar com você! Vamos nos encontrar de novo, tudo bem?

 No alto da parede, próximo da saída, um gatinho branco de porcelana acena para mim.

8 comments

  1. Gostei muito do texto, remete à nossa realidade atual. Lembrei de uma amiga do trabalho que se chama Alzira, japonesa, é muito ativa, não para um minuto. A diferença é que quando conversamos ela está presente no aqui e agora.
    Parabéns Lourdes!!!

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