Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Terra e Tear,
por Eliane Accioly

Reunidas no tear
mulheres tecem
fios e ciclos
de um tempo lunar

Contam laçadas
e pontos, cantam
baladas e lendas
entre risos e marés

Navegando
arcaica memória,
turvo lago,
era imemorial,

riscam e sulcam
essas águas
sem deixar marca
ou pegada

(Os quatro rostos de Eva:
a menina e a virgem,
a plácida grávida,
e a anciã, teia de vida)

Passeando toda noite
no branco esquecimento
que cuida tudo apagar
mulheres e tecelãs
recordam o tempo lunar:

mulher botão, verde fruto,
fruto dando semente
e a velha, terra gretada

Ciclos correm em seus corpos
tecendo rios e leitos
onde deitam com seus homens
onde partejam crianças

Cardando e enovelando
mãos calejadas e nuas
mulheres tramam e urdem
as mortalhas e a vida
entre risos e marés

(Mulher tem muitas sementes:
na menina, a anciã,
e das gretas de uma velha
brota tímida, a menina)

O poema Terra e Tear foi publicado originalmente no livro Sete Vozes, pela Casa do Escritor, iniciativa de Maria José Giglio.

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