Este artigo é parte do Clube dos Escritores Três macacos, Betina Lenzi, Fifties mais, iStock

Três macacos

 

Leio: da melhor idade.

Ouço: para terceira idade.

Falo: sou idosa, dá licença!

Vejo: (na mídia) felicidade para mim.

Nada que esses meus sentidos captam mudam a condição de que somos velhos, ou seja, a Natureza embrulha o Ser Humano no seu Tempo e não no nosso. Queiramos ou não, estamos inclusos nos compêndios médicos na categoria de velhos porque é o que somos e como nos sentimos. A mídia e a sociedade nos  enxergam como na melhor idade. Definição perniciosa e lavada mentira de quem a inventou.

Velhos não estão na melhor idade. Estão na pior idade.  A melhor idade, quase uma imposição para nos manterem com 20 anos a menos.

Se não, vejamos:

Não somos percebidos como tendo usado a caneta tinteiro e a caligrafia para nos comunicar. Tampouco  somos percebidos ciosos em superar códigos enraizados em nossos hábitos e costumes. Não somos percebidos pelo estresse que passamos para nos adaptar às mudanças – continuadamente substituídas – instaladas no nosso cotidiano. Não se apercebem que estas implicam em perdas conquistadas.

Despendemos nossa energia – já na reserva – para compreender e aceitar que  a medida tempo não é mais a mesma. Buscar o prosaico copo d’água entre o quarto e a cozinha no meio da noite, cansa.

A mente esquece, o corpo dói.  Ele tenta, mas não consegue se levantar de sofás baixos e cadeiras sem braço e nada há para se fazer.

Devidamente catequizados, devemos ser velhos de idade e jovens de cabeça!

É verdade absoluta que nem sempre e nem todos atingem este ideal de “felicidade” na velhice. A medicina não poupa esforço e dinheiro para nos fazer viver mais do que o necessário. Mesmo com a cabeça boa, o corpo e os sentidos naturalmente falham. Frustra e deprime quem não consegue acompanhar a expectativa imposta.

Pergunto a cada vez que vou ao cinema, porque não se empregam pessoas acima dos 50 anos?  Se dessem aos “velhos” trabalho e salário,  nós seríamos totalmente capazes de pagar a entrada inteira.  Isso nos faria sentir realmente inclusos em uma sociedade em constante transformação. Pagar meia entrada, como as crianças e estudantes, nos torna inúteis e feridos nas rugas e dignidade. Os velhos treinados nas academias não deveriam estacionar na vaga para idosos. Eles são perfeitamente capazes de fazer manobras entre colunas.

Dirão que nem todos os velhos conseguem ter a cabeça boa e o corpo em forma. Concordo! Conquistamos benesses, sem dúvida, nada desprezíveis para quem as necessita. São muitas as pessoas de idade,  sem  condições financeiras, que vivem de sua minguada aposentadoria e desejam ir ao cinema. As mesmas que se sentem incluídas por não precisarem esperar horas nas filas.

Particularmente, essas conquistas chegam como sinais trocados, uma contradição.

Mas como não acredito em uma solução arbitrada sobre o certo e o errado, fiquemos então com o politicamente correto. Tendência atual que facilita equacionar questões sobre inclusão social, a cada dia mais complexas.

Deixemos  que a teoria resolva as contradições inerentes às Sociedades e aos Homens!

 

Bettina Lenci

BETINA LENCI – Nasci em 1945. 45 foi o número título do meu livro lançado em 2006. Nas vozes de 4 mulheres, intimamente ligadas à minha visão de mundo, o livro narra a trajetória de uma imigração. Como filha de imigrantes, judia e alemã, não tenho como fugir da minha formação e cultura, base dos meus pensamentos. Realizei-me tendo como início profissional a história da arte e a fotografia. As moiras, contudo, teceram meu destino para que me especializasse em ser empresária. Porém, sou uma empresária que descobriu que lendo e escrevendo é possível criar um mundo individualizado. Um mundo com um olhar agudo sobre o cotidiano de todos nós. 

Os textos do blog www.legadovivo.com nascem depois de 60 anos de peregrinação em busca de marcos significativos à beira da estrada. Os caminhos indicavam trilhas a seguir, mas, como se crianças levadas tivessem virado as setas para o lado contrário, bati em terras movediças. Consegui desvirar a seta ao descobrir-me pronta para que os textos fossem rejeitados publicamente.

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