Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos Escritores 50+ Luiz Aun Velho

Velho, de Luiz Aun, nosso autor convidado

Quando eu for velho, ou mais velho, vou querer almoçar fora, lá pelas 2h30m, todos os dias …

Vou tomar um drink quando chegar no restaurante ou no bar e olhar o cardápio demoradamente. Velho tem que fazer boas escolhas pra honrar o lastro da sabedoria conquistada.

Vou perguntar o nome do garçom, como faço hoje, e estabelecer com ele um laço forte de amizade .Vou dar gordas gorjetas. Dinheiro é pra isso… Assim os choros na bebida também engordam.

Vou ficar lá, até a mudança do turno, até novas caras surgirem.

Vou escrever coisas no guardanapo de papel e enfiar nos bolsos, guardar poeticamente amassados.

Vou comer uma entrada bem gordurosa ou picante ou ambas. Assim o apetite diminui, e peço algo leve pra almoçar, enganando a mim mesmo e a minha pressão, meu colesterol, minha glicemia…

Vou encontrar amigos de quem vou recordar vagamente, mas que aos poucos vão me rememorar de fatos e pessoas.

Vou rir de coisas que não lembro mais… mas vou rir, porque quando ficar mais velho pretendo rir de tudo. Velho que ri, é menos velho, é mais querido sem parecer bobo…

Depois do almoço, já início de tarde, vou me dar direito a um drink, provavelmente um whisky com gelo.

Vou ligar pra minha companhia. Que vai perceber que estou feliz. E virá feliz me encontrar e dividir a bebida. A que ela quiser, vinho, provavelmente…

Vou mostrar pra ela meus desenhos e escritos no guardanapo. E ela vai rir das bobagens que escrevi e do garrancho que não entendemos juntos…

A memória vai me trair, mesmo que poucos instantes antes.

Vou apresentar o novo garçom que assumiu a praça pra ela .Ficarão amigos …

Veremos a tarde surgindo, os jovens chegando irradiando corpos, roupas e estilos que já não nos cabem.

Apreciamos juntos o novo, sem reminiscências, sem passado… 

Amigos dos filhos nos cumprimentam como tios, nos reconhecem e reverenciam. Perguntamos dos filhos, da família e observamos como cresceram, sem a atenção de que o tempo passa, voa ou nos arrebata. Isso não nos importa. Importa termos chegado aqui, estarmos ali, com as sensações modificadas, mas intensas na mesma proporção.

Sentir que a bebida, a comida, tem o mesmo prazer, mas o olhar está menos aguçado, menos crítico, mais condescendente.

Todo almoço será feliz, farto e cheio de histórias inventadas ou não.

Chamo o Uber da época. Vou pra casa com ela, namorar .

Mais um drink daqueles que se guarda na garrafa de cristal sem marca, a não ser a da herança de meu pai.

Falamos mais um pouco da vida, a que se vai e a que foi.

Vivemos juntos esse agora breve.

Adormecemos no sofá.

Perna ainda esticada na mesa.

Acordamos sem nada pra fazer.

Já fizemos muito …

7 comentários

  1. Que coisa mais linda, Aun, você deve ser um velho ou virá a ser um velho que quero conhecer. Este mesmo do seu conto. Não quero imitação nem enganação. Prazer em te conhecer, Aun.

  2. Você escreve, divinamente! Seus textos são ” cenas “, em que todos adoraríamos atuar, ” telas “, que todos adoraríamos pintar e, emoções, que adoraríamos sentir! Muito orgulhosa dessa sua ” porção” tão sensível ! Um beijo grande!

  3. Beleza de escrita que flui, faz da velhice um usufruir da vida no que ela oferece, a sabedoria de não desejar ser jovem, sonho impossível, e não ser tragado pela amargura do que se perdeu

  4. Belíssimo exercício do envelhecer, Luiz.
    Percebi o seu texto como um poema em prosa. Parabéns pela fluência e sensibilidade.
    Luciano.

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