Este artigo é parte do Clube dos Escritores

A viagem de Clara, por Roselisa Pereira

Janeiros têm a responsabilidade dos recomeços. Eles marcam as mudanças prometidas na virada do novo ano, o fim e um começo, do velho e do novo, a vida precisa mudar para continuar vivendo. Mesmo sem os móveis, a sala ampla do apartamento parece sufocada e não deixa muito espaço livre para que Clara se mova entre as pilhas de caixas já lacradas, e outras ainda entreabertas.

São suas memórias de cinquenta anos de vida que precisam caber nos devidos lugares de caixas, armários e sótãos. Está sentada no meio desse labirinto que construiu para si mesma. “Pronto…mais uma…ainda bem que falta pouco…”, diz em voz alta, aliviada ao fechar outra caixa, enquanto joga os ombros para trás e espicha a coluna num suspiro quase gemido do cansaço da penosa tarefa de desfazer sua casa. Seus cabelos castanhos e longos caem em desalinho pelo rosto, grudados pelo suor do calor abafado que desce antes da chuva que se anuncia lá fora. Há muito a fazer até que termine com todas as caixas e alguns objetos que precisam ser embalados.

“Preciso terminar antes que eles cheguem”.

Em poucas horas entregará a mudança aos transportadores e finalmente, esvaziará o apartamento. Ela sabe que o tempo de se arrepender e voltar atrás já passou. Foi o tempo vivido nos dias vazios e as noites em claro em que se revirava na cama, inquieta, envolta em seus fantasmas espalhados como os lençóis, pensando no que deveria fazer com sua vida, para onde ir ou mesmo até ficar e se isso diminuiria o peso das ausências, das perdas, disso em que sua vida havia se transformado.  A casa silenciosa testemunhara a sua lenta agonia.

Enquanto manuseava alguns poucos papeis e objetos, lembrou-se dos olhares atentos das pessoas ao ouvir seus planos sobre o futuro, a decisão que transformará sua vida para sempre e de como os argumentos haviam caído por si mesmos, porque no fundo, nenhuma dessas pessoas a compreenderia, de fato.

Levanta-se e vai até a cozinha beber água e com o copo na mão, perde o seu olhar na bela peça comprida e estreita, que já deixara de ser o seu lugar favorito da casa. Ali passara horas, dias, cozinhando no seu templo sagrado e alegre, decorado com latas de chá importados, chaleiras, pilões, vidros de temperos e especiarias. Agora, vazia, parecia grande demais na solidão daquela tarde. Diante da geladeira, retirou sua coleção de imãs de viagens, fotos, receitas. De volta à sala, caminha enquanto faz um coque desleixado nos cabelos e puxa para perto de si a caixa das fotografias. “Essa é a mais difícil de todas…”. Respirou e fingiu ser outra pessoa, enquanto guardava as pilhas de fotos em envelopes, sacos plásticos e por fim, dentro da caixa. “Não vou me permitir olhar nenhuma delas. Se viver muito, terei tempo de sobra para revê-las”.

Mais calma do que quando começara o desmanche de sua casa, terminou de empacotar os últimos objetos, fechou a última caixa. Está feito. “A sorte está lançada.” Pegou um cigarro e foi acendê-lo na varanda. Ela adora a vista do seu apartamento, o verde do parque ambiental, a visão do rio, a amplitude que o décimo-quarto andar lhe permite vislumbrar. Não está arrependida, apesar da agitação dos últimos dias, sente um grande alívio e uma ponta de orgulho de ter ensinado a si mesma que podemos virar as costas e seguir sem apego. Ali estão apenas os traços físicos, “minha vida seguirá comigo” pensa, enquanto esboça um sorriso suave no rosto redondo e de maçãs salientes. Clara se conhece profundamente, até nos seus defeitos. Para ela, a vida já havia mudado antes e nem sempre para melhor, e o desejo de dar mais um salto no escuro era mais forte. Fuma calmamente o seu cigarro e abre as portas de vidro, deixando entrar a luz das duas da tarde e a estranha alegria que a invade novamente. Ela tem flutuado assim, ultimamente, entre idas e vindas de alegria e tristeza, de certezas e desconforto, lutando firmemente contra a dormência que corrói a vida como cupim à madeira, como só as mulheres infelizes conhecem. A brisa improvável passa mornamente pela sala, enquanto brinca com as cortinas, em direção à cozinha. Toca o interfone: “Dona Clara, os transportadores estão subindo”. O aperto no peito aumentou, a hora final estava próxima, o fim dos dias que levou para se desfazer, doar ou guardar o que era realmente importante, o fim dos anos felizes e das solidões da varanda, onde se sentava à noite, por muitas noites, para chorar ou simplesmente ficar quieta. Sua casa havia prestado o seu serviço até o dia em que ficou grande demais para uma só pessoa morar nela. E esse dia havia chegado desde que, pela porta principal, saíram todos, cada qual no seu tempo, porque era chegada a hora de ir. Ela também sairá. Não terá mais a escuridão da sala e suas sombras enormes, projetadas nas paredes, quando chegava à noite do trabalho, dos quartos vazios, da televisão desligada na sala, do sofá abandonado pela falta de uso, do telefone mudo. Três homens entraram pela porta principal e o trabalho do transporte começou: “Cuidado, essas têm vidros”! “Aquelas lá, têm as louças”! Lentamente, a sala foi sendo esvaziada e quando terminaram de carregar o último lote, foram embora levando consigo uma grande parte de sua história. A outra, ela estava começando. Fecha-se a catedral, acabaram os rituais. Se algum dia retornar, ela terá outra face. Em silêncio e sozinha, como na primeira vez, no dia em que fechou o negócio da compra, à vista, sentada num pedaço de madeira a contemplar seu novo apartamento, cheio de restos da obra, latas de tintas, poeira, a conversar com seus pais, celebrando a alegria da conquista. Agora, estava, novamente, a contemplá-lo com o olhar distante. Já era noite. Na mão, um porta-retrato com uma foto de casal sorridente como a dizer que estava fazendo o certo. Apagou as luzes e murmurou: “Até um dia, quem sabe…”. A descida do elevador pareceu não ter fim e se apoiou nas paredes para não cair. Em poucos dias, estaria longe.

 

Eu sou Roselisa Mourão Eduardo Pereira. Tenho 58 anos, divorciada, mãe de duas filhas adultas, Jessica e Jennifer. Sou advogada há mais de trinta anos, tradutora/intérprete Inglês-Português, mas também falo Francês e Espanhol. Pós-graduada em Comércio Exterior e também, Coach Motivacional. Trabalho numa Operadora de Saúde, sou do Piauí (Teresina/Pedro Segundo) e moro há cinco anos em Brasília. Tenho vários manuscritos iniciados, ou precisando ser revistos e gostaria de poder trabalhar menos e me dedicar mais à minha maior paixão, a escrita.

2 comments

  1. Bem vinda, Roselisa, aqui é um lugar onde você vai se sentir bem, junto de gente que gosta de ler e de escrever. A protagonista, na beira de um novo momento de sua vida, de modo alternado entre melancolia e curiosidade, nos convida a participar desse momento. Cada um de nós, de diferentes modos, viveu essa experiência. Boa sorte a ela! Sem dúvida, terá sucesso.

  2. Roselisa, v. recebeu meu comentário? Lembro bem de ter escrito, agora nao sei se chegou até você.
    Dizia que gostei muito do seu texto eo pq gostei e lhe dando as boas vindas.( provavelmente esqueci de tocar a tecla enviar… um mau jeito de lidar com computadores antigo)!
    Voltei a lê-lo e gostei ainda mais. Quantas vezes estes mesmos sentimentos alternados e confusos
    quando se muda? Amores, alegrias, muita solidão quando estamos sós na varanda. Ritos e costumes
    se mudando junto ou nao com a gente.
    Ele, texto, fala com singeleza da vida como ela é. Sem floreios e guirlandas, mostra o sofrimento sem
    melodrama.
    continue por favor.
    bj

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